Quinta-feira, 15 de Maio de 2008

AS ORAÇÕES ESCOLARES NO LICEU NACIONAL DE BRAGA

As Intervenções do Dr. Pereira Caldas

na segunda metade do século XIX

 

 

 
Certas instituições têm por hábito abrir as suas actividades anuais com recurso a uma cerimónia designada genericamente por “Abertura Solene”. É a Abertura Solene das Aulas nesta ou naquela Universidade, é a Abertura Solene do Ano Judicial, etc..
Ao longo dos séculos, tem feito parte integrante do programa da “Abertura Solene das Aulas” a chamada “Oração de Sapiência”. Esta já era pronunciada na abertura solene do ano lectivo da universidade portuguesa quando, ainda no início do séc. XVI, estava sediada em Lisboa. O dia escolhido era o dia de S. Lucas, 18 de Outubro. Chegou até nós a “Oração de Sapiência” proferida em latim – a língua latina era a língua de cultura da época – no dia 18 de Outubro de 1504 pelo jovem Conde de Alcoutim, D. Pedro de Meneses na qual o Conde tece o elogio das disciplinas então professadas no Estudo Geral Olisiponense. Mais tarde fixou-se a data de 1 de Outubro.
Como se constata, esta prática já vem de longe e, à semelhança do que se passava na Universidade de Coimbra (a única existente em Portugal no séc. XIX), também os Liceus nascidos com a reforma de Passos Manuel implementaram esta prática. Era um acto que estava até determinado por Decreto do Ex.º Ministro do Reino e preceituado no Regulamento Escolar de cada Liceu – a existência de Regulamentos Internos das Escolas não é uma invenção dos nossos dias. No contexto dos Estudos Secundários, este discurso inaugural passou a designar-se por “Oração Escolar”.
O Dr. José Joaquim da Silva Pereira Caldas, ou simplesmente Dr. Pereira Caldas, foi professor do Liceu Nacional de Braga, tendo tomado posseno dia 21 do mês de Novembro de 1846, como professor proprietário e vitalício da cadeira de Aritmética e Geometria e das primeiras noções de Álgebra.[1]
Pereira Caldas era natural das Caldas de Vizela, freguesia de S. Miguel, freguesia onde nasceu a 26 de Janeiro de 1818. Tendo feito os estudos secundários em Guimarães, matriculou-se depois na Universidade de Coimbra onde concluiu os seus estudos superiores.
Leccionou durante um ano, no Liceu Nacional de Leiria, mas a sua carreira docente decorreu toda no Liceu Nacional de Braga, então sediado no extinto Convento dos Congregados, no Campo de Sant’Ana.
Foi aí que, ao longo da sua carreira docente, lhe coube proferir quatro “Orações Escolares” no início dos anos lectivos de 1872, 1874, 1876 e finalmente, na qualidade de professor decano do Liceu, em 1886, sendo então Reitor o Dr. José Alves de Moura.
Em cada uma delas o Dr. Pereira Caldas abordou uma temática diferenciada. Na Oração Escolar proferida em 1872 escolheu como tema da lição inaugural do novo ano lectivo o Amor da Instrução. Lançando mão de múltiplos exemplos da história pátria no campo das letras e das ciências, incentivou professores e alunos a aplicarem-se de alma e coração ao estudo. Como as obras de Camões eram por ele consideradas quase como uma Bíblia, nunca deixava de recorrer a um ou outro texto do nosso épico para ilustrar as suas intervenções. Também neste contexto histórico do País e em início solene de ano lectivo lançou mão do conhecido verso camoniano “ Numa mão sempre a espada e noutra a pena”.
Na abertura solene do ano lectivo de 1874, aborda a temática do Amor da Liberdade. Ele que combatera ao lado da facção mais progressista dos liberais, considera a liberdade a base do progresso e da civilização, o fundamento da ordem e da justiça, o motivo do prémio e do castigo. Como era seu timbre ilustrou a sua Oração Escolar com recurso aos exemplos pátrios e relembrou as palavras de Alexandre Herculano “Creio que Deus é Deus – e os homens livres.”
Assinale-se que o Dr. Pereira Caldas foi um dos arautos da liberdade nesta sociedade bracarense da segunda metade do século XIX, ao promover várias conferências na Sociedade Democrática e Recreativa de Braga de que se destaca a sua própria intervenção na sessão de 15 de Dezembro de 1879.[2]
Na abertura solene do Liceu Nacional Bracarense no ano de 1876, o tema desenvolvido foi o Amor da Pátria. O tratamento deste assunto leva-o a fazer desfilar perante professores e alunos “as heroicidades prodigiosas dos nossos maiores, que à sombra da Cruz da Redenção desencravaram de domínios mauritanos este abençoado solo”. Exalta a Imagem da Pátria recorrendo aos versos do poeta bracarense Gabriel Pereira de Castro:
 

Junto a seu pés está sentada a História,
Rodeada de livros onde escreve
Feitos que dignos são de eterna glória,
A que ofender a Idade não se atreve.

 
Na Oração Escolar pronunciada em 15 de Outubro de 1886, já a caminho dos sessenta e oito anos e tendo já perdido a esposa e a sua única filha, disserta, na qualidade de professor decano do Liceu, sobre o Amor da Religião, “como o só e único farol possível – nos trabalhos da vida e nas agonias da morte – para a tranquilidade da consciência e a paz do coração e para atalhar de pronto a perversão ascendentíssima do senso moral na sociedade”.
As suas variações sobre o tema são no mínimo curiosas não só porque nos permitem ter uma visão do pensamento da época no que toca à religião e à conduta moral das pessoas, mas também porque nos permitem um confronto e um diálogo peculiar com o nosso próprio tempo.
O Dr. Pereira Caldas considera que só os valores do Cristianismo não permitirão “converter a liberdade em licença[3] e chamar progresso ao desenfreamento – supondo civilização a falta de para crer, a falta de esperança para confiar e a falta de caridade para amar!”
Considera que será em vão “que os espíritos livres dos nossos tempos – filhos requintados dos espíritos fortes dos tempos anteriores – terão para si em devaneios anti-‑religiosos, que este século de aniquilação das distâncias com vias férreas a vapor – século iluminado com o facho inextinguível da liberdade (…) – há-de vir a ser também num dia, «dia por eles almejado», o século também da aniquilação das crenças cristãs!”
Pensa que tal não acontecerá e, a este propósito, cita Alexandre Herculano - «apodem eles de loucos embora os crentes» - que de tudo apesar e contra tudo:
 

«A loucura da Cruz não morreu».
 

Conclui proclamando diante de professores e alunos: “Este século nosso dos inventos assombrosos – apesar da irreligião perversora do senso moral – está mostrando ao vivo nesses anelos mesmos, que a Cruz da Redenção eleva e não degrada, – engrandece e não infama – exalça e não deprime.”
Como fervoroso apaixonado de Camões não podia deixar de concluir esta sua última Oração Escolar sem recorrer aos seguintes versos do nosso épico (Canto I, LXV):
 

A lei tenho d’ Aquele a cujo império
Obedece o visível e o invisível:
Aquele que criou todo o hemisfério,
Todo o que sente e todo o insensível;
Que padeceu desonra e vitupério,
Sofrendo morte injusta e insofrível;
E que do céu à terra enfim desceu,
Por subir os mortais da terra ao céu!
 

Foi esta a sua última Oração Escolar, embora o seu vigor intelectual tivesse perdurado por mais alguns anos, produzindo saborosos frutos.
Foi a 19 de Setembro de 1903 que a sua voz se calou para sempre. Restam-nos os seus múltiplos artigos publicados em jornais e revistas, restam-nos os seus opúsculos A sua produção literária mereceria certamente um estudo, não tanto pela largueza de cada obra, mas sobretudo pela variedade temática, pela oportunidade dos assuntos versados em cada momento histórico ou pela sua relação com as tradições locais.
 


[1] Martins, Luís Carlos Coelho, No 1º Centenário da morte do D. Pereira Caldas, Bracara Augusta – Revista Cultural da C. M. De Braga, vol. LII, nº107, Ano 2004
[2] Martins, Luís Carlos Coelho, As Farpas e a Sociedade Democrática e Recreativa de Braga, Diário do Minho, 27 de Abril 2005, Suplemento Cultural
[3] Por licença entenda-se o desregramento moral, a insubordinação.
publicado por beatonuno às 16:09
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3 comentários:
De Anónimo a 17 de Maio de 2008 às 23:58
Que atrasado eu estou! Já hoje é (ainda é)dia 17!
FF
De Anónimo a 18 de Maio de 2008 às 00:23
Agora lido o texto - que me reportou aos jardins de Santa Clara numa freguesia de Lisboa - confirmo mais uma vez a beleza e a superior qualidade dos escritos do autor. Ele que não se esqueça de continuar a oferecer-nos prosa de qualidade, com ou sem acordo ortográfico..., e com mais frequência para não nos desabituarmos de a ir procurar.
Um abraço do FF, S e L.
De beatonuno a 19 de Maio de 2008 às 14:30
Grato pela visita e pelas amáveis palavras.
Sempre que possível, irei responder ao pedido.
Beato Nuno

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