Quinta-feira, 3 de Janeiro de 2008

BRACARA AVGVSTA

Na Cartografia do Renascimento destacam-se os “mapas urbanos”, vulgarizados por toda a Europa, sobretudo nos séculos XVI e XVII. O mais afamado é o Atlas urbano de Georg Braun e Franz Hogenberg publicado em Colónia com o título Civitates Orbis Terrarum. Nele está inserta a conhecida gravura de Braun, também designada por “mapa de Bráunio” que representa a cidade de Braga em finais do século XVI (1594) com o título Noua Bracarae Avgvste Defcriptio.

O historiógrafo da Santa Igreja Bracarense, Gaspar Álvaro Machado escreveu, em latim, um texto sobre o que se pensava nessa época acerca da história de Bracara Augusta. Aqui apresentamos uma versão portuguesa do referido texto latino que acompanha a gravura de Braun. A tradução deste texto e um estudo mais alargado sobre a própria gravura foram já publicados na Revista “Quatro Ventos” (terceira série, número três, Fevereiro de 2007).
 
RECENTE DESCRIÇÃO de BRACARA AVGVSTA
 
Consta que Braga, uma das cidades mais antigas da Hispânia, foi fundada pelos Gauleses Celtas[1], com o sobrenome de “Bracatos”[2], no ano 290 antes de Cristo. Após um cerco de 40 anos, os Romanos, colocada a cidade sob o seu domínio, finalmente possuíram-na durante quase quinhentos anos e atribuíram-lhe o nome de Augusta. Houve nesta cidade primeiramente um convento jurídico, um dos sete da Hispânia Citerior, instituído segundo o antigo costume romano, donde, segundo o escritor Plínio[3], vinte e quatro cidades costumavam reclamar a justiça. Daqui são traçadas por Antonino Pio cinco vias militares para várias partes da Hispânia. O poeta Ausónio[4]chama a esta cidade rica e florescente em riqueza. Mas nos antigos anais dos antepassados, um escrito mostra que em Braga esteve a antiga sede dos reis dos Suevos mais de cento e setenta anos, e sob os Godos floresceu cento e vinte e sete anos, e esta foi a primeira entre todas as cidades Metropolitanas da Hispânia, que Afonso, o primeiro deste nome, cognominado Católico, Rei dos Hispanos libertou do domínio dos Sarracenos para a antiga liberdade, no ano de 740. Aqui foi sepultado, na Igreja Catedral[5] que ele próprio tinha erigido, o primeiro pai dos reis de Portugal, o Conde Henrique (filho de Guido[6] Conde de Vernohen e de Briones) pai de Afonso Henriques, primeiro Rei de Portugal. Mas de longe a maior honra para a cidade advém do legado sagrado. Com efeito abraçou a fé de Nosso Senhor Jesus Cristo, sendo pregador D. Pedro[7], discípulo de S. Tiago Maior, apenas dez anos após a data, em que o mesmo Senhor, subjugada a morte, como vencedor, tinha subido ao céu. Portanto Braga honra, como patrono, o mesmo São Pedro mártir, seu primeiro Arcebispo, do mesmo modo conjuntamente com os outros seus três Pastores: Martinho, Frutuoso e Geraldo, pelos quais, como quatro colunas, a Igreja Bracarense é sustentada e resplandece. Ela que outrora derramou muito sangue por Cristo, foi enriquecida com oito corpos de Santos e outras inumeráveis relíquias, ornada de templos, enobrecida com os Concílios dos Padres, adornada com confrarias canonicamente instituídas, reivindica para si, por direito antiquíssimo, o primado de toda a Hispânia; por esta razão, há um velho litígio com a Sé de Toledo, e desta contenda faz menção Honório III, no capítulo “Coram, De in integrum restitut.”. Contudo este litígio está silenciado desde o tempo deste mesmo Pontífice Máximo até aos nossos dias.
Braga fica naquela parte do Reino de Portugal que é chamada região Interamnense, isto é, entre os dois famosos rios Douro e Minho pelos quais está delimitada. Situa-se na quinta zona climática, tendo o grau de longitude 6, de latitude 42 e meio, e dista do Oceano cinco léguas.
 O conjunto dos cidadãos obedece ao seu Arcebispo de pleno direito, quer no que toca à jurisdição espiritual, quer temporal. Outrora com muito mais habitantes, agora conta cerca de dois mil. Usufrui de uma grande doçura do céu e dos ares, de uma admirável fecundidade dos campos, e de uma beleza, mercê que é comum a ela e a toda esta região Interamnense. Acerca desta cidade, encontrarás estas e muitas outras coisas dignas de serem conhecidas na nossa Metrópole Bracarense, que, se Deus quiser, pensamos editar sob os auspícios do ilustríssimo Primaz Agostinho, por cujo mandato e autoridade percorremos toda a diocese, e no mapa, empenhadamente, representámos, desenhando os montes, as cidades, os rios, as fortificações, as paróquias, as capelas e os caminhos geográficos.
Estas coisas escreveu Gaspar Álvaro Machado, historiógrafo da Santa Igreja Bracarense.


[1] Júlio César no seu “Comentário sobre a Guerra Gaulesa” refere que os Gauleses, na sua própria língua, se designavam Celtas, mas os Romanos chamavam-lhes Gauleses.
[2] “Braccatis” significa Gauleses, mas, com esta tradução, evidencia-se a relação etimológica com “Bracara”.
[3] Investigámos a obra de Plínio, o Velho, funcionário imperial, militar e historiador (séc. I) e encontrámos na sua Historia Naturalis, Liber III o excerto que fundamenta a afirmação de Gaspar Álvaro Machado:
Citerioris Hispaniae sicut conplurium provinciarum aliquantum vetus forma mutata est, utpote cum Pompeius Magnus tropaeis suis, quae statuebat in Pyrenaeo, DCCCLXVI oppida ab Alpibus ad fines Hispaniae ulterioris in dicionem ab se redacta testatus sit. nunc universa provincia dividitur in conventus VII, Carthaginiensem, Tarraconensem, Caesaraugustanum, Cluniensem, Asturum, Lucensem, Bracarum. accedunt insulae, quarum mentione seposita civitates provincia ipsa praeter contributas aliis CCXCIII continet, oppida CLXXVIIII, in iis colonias XII, oppida civium Romanorum XIII, Latinorum veterum XVIII, foederatorum unum, stipendiaria CXXXV. 
[4] O poeta Ausónio escreveu uma obra em que descreve vinte cidades do Império Romano, entre as quais Bracara Augusta: “Quaeque sinu pelagi jactat se Bracara dives”.
 [5]O Conde D. Henrique, embora tenha falecido em Astorga, foi trasladado para a “Capela dos Fundadores” na Sé de Braga.
[6] Como se constata, no séc. XVI havia uma enorme incerteza sobre a origem da genealogia do Conde D. Henrique. Alguns cronistas portugueses e o próprio Camões, em dois passos d´Os Lusíadas, (III,25 e VIII,9 - indica a sua origem húngara) reforçam esta incerteza. Note-se, porém, que do ponto de vista histórico e genealógico o Conde D. Henrique era filho de Henrique de Borgonha, como veio a comprovar-se com o aparecimento, em 1596, de um manuscrito achado na abadia da Ordem de Cluny, na Borgonha.
[7] Trata-se de S. Pedro de Rates, tido como discípulo de São Tiago, o qual teria sido o primeiro bispo de Braga; na mesma sequência Basileu, também discípulo de Tiago, teria sido o fundador da igreja do Porto. Para Évora já o Livro das Calendas da Sé de Coimbra mencionava o nome de Manços, que André de Resende admite como tendo participado na entrada triunfal de Cristo em Jerusalém e acompanhado a Última Ceia. Miguel de Oliveira, "Lendas apostólicas peninsulares", in Lenda e História, Lisboa, 1964, pp. 79-110; J. Fernández Catón, San Mancio; culto, leyenda y religuias, León, 1983.


publicado por beatonuno às 16:09
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3 comentários:
De FF a 3 de Janeiro de 2008 às 23:32
a tua PONTUALIDADE é perfeita...
vou ler, depois te digo, e não te esqueças que depois de Coimbra e Braga temos ... Lisboa.
até já.
De ffl a 4 de Janeiro de 2008 às 22:06
Pois, cá estou para dizer que mais uma vez fiquei deliciado com o teu trabalho: de pesquisa histórica, de correcção de linguagem e estilo, de partilha com os amigos.
até sempre.
De ams a 7 de Janeiro de 2008 às 19:43
Mais uma vez um belo trabalho!
Tenho a esperança de vê-los um dia publicados em conjunto entre uma mesma capa, à frente, e uma mesma contracapa, atrás, ligadas por uma lombada q.b. com um título que um dia acontecerá e um autor que há muito o merece: Luis Carlos Martins.
AMS

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