Domingo, 2 de Dezembro de 2007

COIMBRA

 Uma gravura da Cidade de Coimbra, datada do século XVI, apresenta, para além de um conjunto de legendas que remetem para diversos espaços da cidade de então,  um texto latino, em anexo. Propomos uma versão portuguesa deste texto.
O texto apresenta uma curiosa referência a Aljubarrota, terra que me é particularmente querida.

 
 
“Conimbria”, vulgarmente conhecida por Coimbra, foi outrora capital do Reino de Portugal, chamada “Caliabria” por alguns Antigos, por outros de “Colimbria” ou “Colibria” e também “Coimbria” por Isidoro e Rosendo, embelezada com os esplendores da Natureza e da Arte. Na verdade, situada numa colina em lugar ameníssimo que por assim dizer a sustém, está rodeada de todos os lados por olivais, como em Atenas (hoje é denominada a Lusa Atenas) e por vinhedos. Situada junto do notável rio Muhamada ou Monda ou ainda Mondego que une por uma ponte as duas partes separadas da cidade, rio que na verdade, para além do Tejo e do Douro, é o principal na Lusitânia; esta cidade dista oito léguas da foz deste rio, que corre para ocidente, através de campos muito férteis e muito fecundos em produtos da terra. Durante algum tempo é navegado por pequenos barcos, sobretudo no Inverno; de facto arrasta consigo tão grande quantidade de areia, sobretudo no Inverno, que em muitos lugares superabunda em bancos de areia ocultos. Na verdade a margem, daquele lado onde está o Mosteiro de S. Francisco, cheia de seixos, proporciona passeios agradabilíssimos. De facto, embora o terreno da Lusitânia seja conhecido como inculto na maior parte dos lugares, contudo o território desta cidade é o melhor e o mais excelente de todo o Reino. Os patriotas chamam de Estrada de Aljubarrota[1] aos montes que a cidade tem nos arredores, montes esses cheios de olivais, de vinhedos e de todo o género de árvores de fruto para seu deleite e proveito. E mais ainda, Coimbra é irrigada por abundantes fontes de água muito cristalina, sobretudo graças ao célebre aqueduto concluído, com um enorme investimento, pelo Rei D. Sebastião no ano de 1572. Com efeito dele, para a colina mais alta da cidade, que fica nas traseiras do Palácio Real, onde existe o Fórum dos Estudantes, é vazada, para dentro de um depósito de mármore, tamanha quantidade de água claríssima e de sabor agradabilíssimo que é canalizada como uma torrente, através de todas as praças, no decurso de todo o ano, para variados usos e inúmeros benefícios dos cidadãos. Mais ainda, Coimbra evidencia-se com uma maior fortuna pela Catedral, fundada de uma forma excelente pela Igreja, e pelos Estudos Gerais das Artes mais excelentes que não só a amenidade do lugar mas também os vários ofícios das artes mais excelentes recomendam. Com efeito aí, a expensas régias, são generosamente apoiados e pagos os Professores de Teologia, de Direito Canónico e Civil e da Faculdade de Medicina. Em cada uma destas Faculdades, para que os estudantes sejam mantidos no seu trabalho com lições diárias, existem quatro Doutores ordinários, que com apuradíssimos e continuados exercícios de lições e de debates, aperfeiçoam o engenho dos estudantes até ao polimento e à suma elegância. Existem também professores públicos e particulares das línguas eruditas e os Padres da Companhia de Jesus ensinam com efeito as ciências de Humanidades com um zelo esmerado e com grande sucesso, formando a juventude simultaneamente na piedade e nas belas-letras. Aqui existem também quatro Cursos de Artes: os de Lovaina, a Pedagogia, os de Colónia, os Bolseiros (do Colégio de Santa Bárbara de Paris). Outros a que chamam Colégios, nos quais são leccionadas a Filosofia, a Metafísica e a Matemática. Existem ainda outros Colégios dotados e instituídos pelos Prelados e por excelentes varões cuja descrição exige uma narração demasiado longa. Os nomes destes são apresentados em placas próprias ou numa pintura. Todos os estudantes observam no vestuário as antigas leis da modéstia, da gravidade e das escolas, na realidade são obrigados a andar com toga. E são frequentados em grande número. Gozam de jurisdição privada – separada da dos outros cidadãos – e privilegiada. Nela elegem, do próprio seio da Universidade, os edis, os prefeitos e os administradores da justiça. Estes igualmente no próprio foro da Universidade presidem ao tribunal e ditam o direito. E regulam o preço de venda dos produtos.

[1] No Dicionário Corographico de Portugal Continental e Insular pode ler-se:
"Defronte da villa a 200 metros de distância veem-se alguns vestigios da antiquissima egreja de Santa Marinha (ainda veem no adro sepulturas de eras remotíssimas, com dizeres e instrumentos agrícolas esculpidos). Teem-se aqui achado moedas romanas de prata."

No entanto o nome Aljubarrota terá muito provavelmente origens árabes, aquele povo, durante a sua longa ocupação, terá denominado a povoação aqui existente de Aljobbe (que significa poço, cisterna ou cova funda) que mais tarde derivou para Aljubarrota.
http://www.jf-aljubarrota.pt/historia/historia_home.htm
publicado por beatonuno às 16:45
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2 comentários:
De FF a 2 de Dezembro de 2007 às 23:56
Muito BEM, L. C. Agora incursões pela História da nossa Cidade, com relevância para a Universidade.
Hei-de ler melhor e com mais atenção que tenho muito que aprender. Escreve sempre que nada se perde. Um abraço do FF
De ams a 5 de Dezembro de 2007 às 23:45
Meu Caro BN
(sim de vez em quando esquecemo-nos que o autor é Beato Nuno),
passo por aqui, por vezes, leio, regresso, leio outra vez este ou aquele trecho e gosto. Noutro Forum fundamentei; aqui venho dizer agora que, quando o espaço entre textos é grande, a gente sente saudades.
AMS

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