Sexta-feira, 1 de Junho de 2007

O MEU PROFESSOR PRIMÁRIO - PARTE II

Naquela longínqua década de cinquenta do século XX, o Inverno era muito duro e a conjuntura político-social ainda mais dura. A maioria dos alunos, nesta área nortenha do País, passava fome e frio. Valia, por vezes, um acto de solidariedade nascido da iniciativa individual de um ou outro aluno mais bafejado pela sorte que, mercê do berço em que tinha nascido, podia partilhar pela manhã o seu pão com manteiga ou marmelada com o colega esfaimado e enregelado. Este, agradecido, nada encontrava, na sucessão dos dias, para poder retribuir aquele mimo matinal. Mas a verdade é que a solidariedade infantil é engenhosa e maravilhosa! Um dia, logo pela manhã, o menino pobre a quem, por ironia do destino, chamavam “Conde”, apareceu na escola com um embrulhito envolto num farrapo velho e depositou-o nas mãos do seu benfeitor. Este, sentindo um certo calor que vinha do interior do embrulho, um tanto a medo, foi desdobrando, desdobrando o farrapo velho e, bem lá no fundo, descobriu, estupefacto, dois pequenos seixos aquecidos. Fora esta a admirável forma que o pobrezinho encontrara para retribuir a dádiva do pão de cada dia. É que os “bolos” (como então se dizia) doíam mais com as mãos enregeladas. Sendo o seu benfeitor um dos mais “premiados” com os ditos “bolos”, poderia agora, com as mãos aquecidas, suportar melhor as reguadas.
Rolaram os dias, as semanas e os meses, e chegaram os dias do mês de Maio, com o ar pesado e sufocante da trovoada a rondar por perto. O professor sentiu-se mais acossado pela sede e, com o espírito mais tranquilo devido à ensinadela que tinha dado à classe, resolveu empreender nova peregrinação ao habitual café da vila.
Mas, verdade seja dita, ele sentia um imenso orgulho em levar os seus alunos bem preparados para o exame da quarta classe. Era para ele uma honra e uma glória ver como os seus alunos brilhavam ao serem interrogados pelo júri formado por professores de outras escolas.
Entendia o mestre que os alunos da quarta classe precisavam de uma preparação especial nesta época que antecedia os exames e, por isso, dava-lhes mais umas lições. Assim, chegada a hora normal de saída dos alunos, ele retinha os da quarta classe durante mais algum tempo. Recordado, porém, das tropelias anteriores, optou por nova estratégia.
A escola, além do quadro negro, tinha mapas de geografia de Portugal e das Colónias e mapas com a constituição do corpo humano. Ora o nosso mestre teve uma ideia genial! Dividiu os alunos da quarta classe em “tribos” e nomeou “sobas” (alunos, no seu entender, mais bem comportados e sabedores) para estar à frente de cada uma das ”tribos”. Constituídas as diversas “tribos”, distribuiu-as pelos diferentes mapas e pelo quadro negro. Assim, enquanto uns faziam problemas no quadro, outros memorizavam, com o auxílio dos respectivos mapas, as linhas de caminho de ferro, as produções africanas ou o aparelho circulatório, sob a orientação do respectivo “soba”.
Agora podia sair sossegado e com o espírito tranquilo a caminho da “capelinha”. Aí poderia fumar o seu cigarrito sossegadamente e matar aquela sede que o devorava. Os seus súbditos estariam calma e serenamente, sob a orientação de cada “soba”, martelando os nomes das serras de Portugal, das produções minerais de Angola ou Moçambique, ou apontando os ossos da cabeça do corpo humano. In illo tempore estas coisas ensinavam-se e eram mesmo para “saber”.
O nosso mestre era, de facto, um professor interessado no sucesso dos seus alunos. Os objectivos eram empenhadamente perseguidos, embora os métodos utilizados pudessem não ser os mais aconselháveis. A própria estrutura política e social da época funcionava como uma espécie de colete-de-forças que não só oprimia mas também obrigava à execução de certos procedimentos altamente reprováveis.
Mas não esqueçamos que toda a moeda tem dois lados e a Lua também tem outra face. O ser humano a que chamamos “pessoa” nem sempre mostra aquilo que é. Por vezes “afivelamos” a máscara do social e forjamos uma máscara com que queremos que nos vejam em público. Curiosamente a palavra latina que significa máscara é precisamente a palavra “persona” que na sua evolução para a língua portuguesa originou a palavra “pessoa”. O que vemos uns dos outros é a “persona”, a pessoa, ou seja, a tal máscara.
Quantas vezes por trás da máscara não se esconde uma outra pessoa. Ora o nosso mestre também tinha uma outra face que aqui me apraz registar. Alguém, vasculhando os papéis da infância, encontrou uma pagela, um “santinho”, em pergaminho, com a imagem de Nossa Senhora que tem, no seu interior, um texto manuscrito por este professor, que passo a transcrever:
“Como testemunho de admiração pelo seu exemplar comportamento, o seu professor oferece, para recordação, ao seu muito dedicado aluno (….), esta insignificante lembrança. Vila Verde, 5 de Julho 1952.”
Há sempre uma face luminosa!
publicado por beatonuno às 10:46
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5 comentários:
De Anónimo a 1 de Junho de 2007 às 12:27
Há sempre, de facto, uma face luminosa que pode atenuar a dureza ou a rudeza da outra. É mais para essa face que devemos olhar. Talvez a outra se modifique e se torne menos agreste.
Pontualíssimo, L.C.!!!
Sempre à espreita, o FF.
De Margarida a 5 de Junho de 2007 às 10:38
É verdade.

E mais: em cada época os "pecados" mudam. Naquele tempo dar uma boa sova num filho era uma forma normal de se ser um bom e responsével pai. Levei bastantes, e bem duras...
Como costumo dizer, D. Afonso Henriques comia com as mãos e não era por isso que seria mal-educado...

Pensemos, os que nascemos na primeira metade do séc. XX, em quantas coisas deixaram de ser "pecado" desde esse tempo! E quantas coisas passaram a sê-lo.

E agora calculem quantas coisas dos nossos hábitos normais de hoje virão a ser olhados como selvajaria pelos nossos netos...

Bem, vou fumar um cigarro ali no quintal, aproveitando enquanto não é crime...
De Anónimo a 5 de Junho de 2007 às 12:26
A Margarida, que pelos dados é mais nova que aquela que de mim nasceu, tem razão em algumas coisas. As coisas vão melhorando, evoluindo -nem sempre pelo melhor caminho.
Penso que dos pecados cada época tem os seus... mas que não é fácil gerir essa situação. Aqueles que já por cá andam há muitas décadas, doem-lhes certamnte os pecados que cometeram mas que agora já não são e que deixaram muitas marcas, como os que passaram a ser. Serei eu capaz de viver no tempo em que estou mas olhando sempre para a frente? saudações amigas do FF.
De Anónimo a 5 de Junho de 2007 às 12:54
((( um errogravíssimo... no com. anterior: deve ler-se "MENOS nova".
Corrige o FF)))
De tinta permanente a 20 de Junho de 2007 às 11:51
É curioso que, nesta questão, tenha tido a faculdade de 'experimentar' duas faces distintas desta, por vezes, tão marcante memória: tive um professor bem ao jeito do caricatural mestre-escola e, também, uma professora que além das letras e dos números, também ensinava afectos à mistura de jogos e histórias...

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