Terça-feira, 1 de Maio de 2007

O MEU PROFESSOR PRIMÁRIO

O texto pode ser visionado em PowerPoint

 

O homem afigurava-se-nos, a nós meninos de sete, oito anos, de uma estatura desmesurada, corpulento como o gigante Adamastor e dotado de uma força de super-homem. Era, no dizer popular, um homenzarrão.
A sua pedagogia não desdizia do seu aspecto. Era, como escreveu Horácio, a pedagogia da férula. As sucessivas gerações que passaram pelas suas mãos, pela sua “menina dos cinco olhos” e pela sua cana-da-índia, podem confirmar em absoluto que só conhecia esta pedagogia, só a ela servia, só a ela prestava culto, como um devoto de Santa Luzia, do São Bentinho ou da Senhora do Sameiro.
Aluno que lhe entrasse pela porta adentro havia de sair dali "a saber", como então se dizia. Se não aprendia a bem, aprendia a mal, mas tinha de sair dali “a saber”. Aquelas cabecinhas tinham de se abrir ao saber, antes que “algum pedaço de céu velho”, como frequentemente repetia, lhes caísse em cima e as abrisse de vez.
Na década de cinquenta do século XX, a vida era muito difícil: grassava a fome, a doença e o alcoolismo. Acrescia a tudo isto que as famílias, com uma ranchada de filhos, ainda menos tinham para distribuir em alimentos e roupas. Os Invernos eram rigorosos e as crianças chegavam à escola com fome e com frio. O vozeirão do professor logo se fazia ouvir: - “Já vos aqueço!”.
O próprio edifício estava degradado e o vento e o frio entravam com todo o à-vontade pelas rachas abertas nas paredes. E, infelizmente, já tinham caído “alguns pedaços de céu velho”, porque o estuque, com as entradas sucessivas das águas das chuvas, já tinha cedido aqui e ali e aberto algumas brechas.
Ninguém saía dali sem saber ler e fazer contas. Quando chegava a hora da tabuada, os alunos faziam um semicírculo em torno da secretária do professor e começava a “festa”. Ai de quem não “soubesse”! A situação era pior do que no Juízo Final para qualquer condenado. Já não havia remissão possível. Logo se apressavam a entrar de serviço a dita “menina” e a cana-da-índia. Havia choro e ranger de dentes, mas o juiz não mostrava qualquer clemência. Era a hora do Juízo. Aplicava logo ali a respectiva pena, quando não, para não se incomodar muito, lançava mão de um carrasco ad hoc para aplicar o correctivo.
Mas não há festa sem procissão. Por isso, terminada a sessão da tabuada, logo se organizava a cortejo. À frente, bem alçada, abria a procissão a brilhante palmatória erguida pela mão de um dos alunos; atrás, seguia o rancho dos penitentes, alguns ainda lacrimosos e com as mãos e as orelhas a arder. O cortejo seguia, em fila indiana, pelas “ruas” abertas entre as carteiras, em ritmo lento e compassado O do pendão, erguida bem alta a “santa dos cinco olhos”, gritava: - “Santa Luzia!”. (Esta é a Santa da Luz, também das luzes do espírito, protectora dos olhos). Em coro, os penitentes iam respondendo: -“Amanhã temos tabuada!”. E este ritual ia-se repetindo a cada dia. Sentado por detrás da secretária, o professor sorria, babado, sorvendo o espectáculo e indiferente aos soluços dos penitentes.
As tardes eram longas e a sede por vezes apertava e obrigava o sedento professor a ter de ir refrescar as goelas. Lá saía ele a caminho do café, não sem que antes deixasse um dos alunos encarregado de escrever no quadro o nome dos que se portavam mal. Assim, ia mais descansado.
Ora naquele dia aconteceu que, ao sair, encostou a porta ao de leve e de imediato um dos alunos salta lá para a frente e grita: -“ Já saiu o Touro, agora a escola é nossa!” Todos os alunos se levantaram das carteiras e uma algazarra ensurdecedora ecoou pela sala de aula. Parecia dia da feira semanal. A classe, tantas vezes amordaçada, sentiu, por momentos, o cheiro da liberdade.
Eis senão quando, regressa de rompante o professor e apanha toda a classe em flagrante. Desta vez, o professor fizera que fora para o café, mas não fora. Tinha estado ali, com a porta entreaberta a escutar o que se passava. Alguns nem o viram entrar e continuavam a fazer um barulho ensurdecedor. Outros já corriam para as suas carteiras e tentavam com acenos e sussurros avisar os colegas. Ainda a “ordem” não fora restabelecida e já o vozeirão do professor se fazia ouvir: - “Ah burros anjinhos que vos amanso!” Ia recomeçar uma longa tarde de “festa”, melhor dizendo de “arraial” e de “trabalho” insano para a “menina dos cinco olhos” e para a cana-da-índia.
publicado por beatonuno às 22:53
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11 comentários:
De FF a 2 de Maio de 2007 às 14:36
como experiência... Ggostei. os meus não eram tão assim. o primeiro era muito bom. soube mais tarde que também lá andou mas há muito tempo. continua com a tua pontualidabe britânica, que eu sou leitor assíduo
De JC a 2 de Maio de 2007 às 19:02
Fizéste-me, como tão bem sabes, reviver momentos de velhas recordações. Tive um assim, que se orgulhava de dizer " nunca aluno meu reprovou na 4ª classe". Imaginas que me revi nas "tuas festas,arraiais e procissões". E dizer, que a escola fora construida no local onde existira a Igreja de Santa Cruz.
A cantarinha continua a ir à fonte.... a àgua é deliciosa!
De tinta permanente a 4 de Maio de 2007 às 19:22
Arrepiei-me!...
(coisas estranhas estas que, às vezes, a memória faz...)
Não que, valha a verdade, tivesse tido muita conversa com a dos cinco olhos, mas foi o suficiente para lhe aprender aqueles truques que, nada fazendo ao vermelhão da palma da mão, pelo menos enganava, por instantes, a alma suspensa da dor: era fazer covinha com a mão, por um cabelo atravessado na palma da mão ou, essa era gaantida, uma cuspidela bem no meio da mão...
Não havia era truque para as vergastadas da cana...
E lá ia a tabuada, os pronomes, as conjunções, os reis a mais os rios...
Saborosa (hoje...) a sua descrição!...
Abraços!
De beatonuno a 5 de Maio de 2007 às 12:38
As cerejas estão aí a chegar e, nestas coisas da memória, é um pouco como as ditas.
Depois do que li, afloraram ao espírito esses "mitos que se transmitiam, de geração em geração, sobre o cabelo atravessado na palma da mão, a cuspideda, etc,etc..
Grato pela visita e pelas memórias que o seu texto me suscitou.
Um abraço amigo.
De Margarida a 6 de Maio de 2007 às 10:19
No meu colégio de freiras, as reguadas também existiam. Mas havia castigos mais subtis, mais destruidores.
Ficar em pé, no meio do corredor, com um letreiro na cabeça a dizer "sou preguiçosa" durante uma tarde inteira, enquanto toda a escola, de hora a hora, passava por ali - era um deles.
Eu tinha 6 anos quando me fizeram andar um dia inteiro com um bordado meu virado do avesso (avesso mal feito, claro...) pregado nas costas. Eu bem me encostava às paredes enquanto sufocava as lágrimas de humilhação, mas sempre alguém via.
A minha infância foi feita de muitos terrores. Metade deles nasceram e criaram raizes naquele colégio de dominicanas.

(Devo dizer que, quase como uima vingança, já mulher e mãe me fiz boa bordadeira. Se calhar podemos dizer que a "pedagogia" resultou. Mas ainda hoje fico em pânico quando alguém olha o avesso...)

Margarida
De beatonuno a 7 de Maio de 2007 às 14:46
Margarida, é impensável que tenham tido esse tipo de comportamento em relação a uma criança de seis anos. Só mentes perversas e formatadas pelo ideário inquisitoruial poderiam agir assim. Ainda bem que vivemos noutros tempos.
Mas quantas mais histórias deste teor não andarão por aí perdidas.
De olhadela a 8 de Maio de 2007 às 23:03
Este aflorar da memória pôs-me sentado ali na escola da minha terra, que já não existe com essa função. Já por lá passou o simplex.
Mas naquele tempo também por lá passava a ""Santa Luzia". E eu era um "medricas". Sempre que a professora levantava "o andor da santa" eu punha-me logo a lacrimejar, de tal forma que a professora punha-se a rir e às vezes dava resultado: Perdia a devoção.
Agora no Seminário de Buarcos bem me lembro da canada do Padre Abrantes. Grande safado, que ainda hoje tenho a marca. Nunca mais me nasceu pelo no sítio da mesma.
De j.j.q.l. a 9 de Maio de 2007 às 12:43
Parabéns pelo belíssimo texto com que nos presenteaste. Fez-me recordar alguns episódios, não tanto da primária, que a professora, embora exigente...era a minha mãe!... Mas eu tinha que dar o exemplo e também havia a tal menina de cinco olhos e a cana-da-índia.
O caso passou-se lá pelo meu 3º ou 4º ano, na Figueira da Foz. Não recordo bem os pormenores, porque, felizmente, a memória é selectiva.
Estávamos no refeitório e fazíamos a oração de agradecimento pela refeição que iríamos tomar. Era ao almoço. À minha frente um colega (penso que era o Adriano) aplicou-me o calcanhar na canela. Doeu. Como é evidente, tinha que retribuir a delicadeza, dei-lhe um valente beliscão que o fez contorcer. A parte final da cena foi observada por um "corvo negro" acabado de assumar à porta, que nada disse, mas fez questão que eu tivesse consciência de que ele presenciara a cena.
Terminada a refeição (cada garfada transformou-se numa dolorosa espera pelo castigo que haveria de chegar - nós sabíamos bem como era!...), saímos na santa paz do Senhor!...
A tarde passou-se sem sobressaltos, com os rituais costumeiros.
Jantar. Tudo normal até ao momento em que sou chamado, alto e bom som, à mesa inquisitorial (leia-se, dos senhores padres), onde pontificava o Reitor. Sou apresentado como o profano da oração do almoço, sem princípios nem comportamentos capazes, indignos de uma pessoa normal, quanto mais de um seminarista!...
E, perante o sepulcral silêncio da sala, a tal "menina" estalou-me repetida e alternadamente nas mãos.
Quantas vezes? Poderia ter sido uma dúzia ou um cento... Só me lembro da vergonha, da humilhação!...
Cumprira-se o dever de educar!...
Também, porque a minha memória é selectiva, não consigo esquecer... Nem perdoar.
De Anónimo a 10 de Maio de 2007 às 15:29
JJql
Certamente não podes esquecer que as coisas ficam marcadas a fogo na memória, mas perdoar podes , que é uma digna e nobre atitude humana. Com o passar do tempo todos nós, falo mais por mim, reconhecemos os erros que cometemos, eles certamente também, e muitas vezes se terão arrependido. Há anos um disse-mo de caras...
partilhamos todos duma pobre e frágil humanidade. Um forte abraço do FF l.
De beatonuno a 10 de Maio de 2007 às 17:23
Foi uma satisfação ver por aqui o j.j.q.l..
Dez anos antes também fui brindado com um "bolo" da luzidia "menina dos cinco olhos", quando, no corredor das aulas, antes de um exercício de Matemática, me atrevi a ir a uma das janelas ver "o glorioso exército português" que desfilava na estrada de Tavarede. A mão foi bem aquecida para o exercíco.
É evidente que nunca mais me esqueci, mas já perdoei a quem lá está. Não haverá uma Filosofia que ajude a ultrapassar aquela memória nefasta? Nem um certo espírito estóico?
Só mais uma coisa. Consegui uma foto do Encontro de Pedrógão para me ir recordando do J.J.Q.L..
Um grande abraço.
De jjql a 11 de Maio de 2007 às 23:44
Caro "beatonuno"

Filosofando... se é que disso se trata...
Se é verdade que os estóicos se esforcem por pensar os homens independentes das circunstâncias, há circunstâncias que nunca conduzirão ao ideal da perfeição. E, para perdoar, é preciso atingir um certo estado de perfeição...
Mas todas as circunstâncias, ainda que negativas (e até nefastas...), podem ter sempre alguma coisa de positivo: pelo menos, em circunstância alguma, usei a humilhação como "processo educativo".

Um grande abraço (será que o poderei dar pessoalmente em Miranda?)

jjql

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