Terça-feira, 3 de Outubro de 2006

O MÉDICO À FORÇA

Com o soar das três pancadas de Molière, as luzes da sala iam-se apagando. O bulício da plateia ia-se transformando num sussurro que pouco a pouco mergulhava num silêncio total. O espectáculo ia começar
O cartaz anunciava O Médico à Força de Molière.
Diga-se desde já que é uma peça hilariante.
Um simples lenhador, Sganarelo, é levado pelas circunstâncias a exercer a Medicina. Verdade seja que ele já tinha sido em tempos criado de um médico e a convivência com este levara-o à aprendizagem de um conjunto de práticas e de uns quantos termos apanhados de ouvido, alguns em latim macarrónico, que lhe iam servindo para o exercício da Medicina e para pasmo dos pacientes e familiares.
Molière aproveita a peça não só para ridicularizar os médicos do seu tempo, mas também para ridicularizar os pais que tantos entraves colocavam às inclinações amorosas de suas filhas.
Sganarelo, um simples rachador de lenha, vê-se forçado a exercer a Medicina quando é obrigado a deslocar-se a casa de Geronte para lhe curar a filha Lucinda, enamorada do jovem Leandro, e vítima de amores contrariados pelo pai.
Outra das personagens é Jaquelina, a Ama que Geronte escolheu para amamentar o seu menino.
Ao longo da peça Molière recorre a vários tipos de cómico (cómico de situação, cómico de linguagem, etc.) para provocar a hilaridade do público.
Logo que Sganarelo chega a casa de Geronte fica encantado com a Ama e exclama:
 
Ena! Que peixe por aqui há!
Ah ama, ama encantadora, a minha medicina é uma humilde criada da sua leitaria; só quisera ser eu o seu menino; veria como chupava. (Tenta apalpar-lhe os seios). Todos os meus remédios, toda a minha ciência toda a minha capacidade estão ao seu dispor, e …
 
A tentativa de Sganarelo é interrompida por Lucas, marido da Ama. Estabelece-se um diálogo entre eles e a cena acaba com Sganarelo a dizer a Lucas:
 
É que tomo parte igual na felicidade de ambos e se o abraço a si para lhe testemunhar o meu gozo, abraço-a a ela para o meu gozo lhe testemunhar.
 
Entra Geronte e Sganarelo diz-lhe:
 
Como sempre me interessei por tudo o que lhe diz respeito e à sua família, quero examinar o leite da ama e visitar-lhe o seio. (Chega-se para Jaquelina).
 
Mas a doente para quem Sganarelo foi chamado, era a filha de Geronte, a jovem Lucinda. Ao vê-la Sganarelo exclama:
 
Ora aqui está uma doente que não é nenhuma peste e que me parece que encheria as medidas de qualquer homem.
 
O pai baboso retorquiu:
 
Já a fez sorrir.
 
O falso médico vai interrogando a jovem, mas esta só responde com monossílabos indecifráveis. Daí que o velho Geronte declare que a sua filha inexplicavelmente se tornou muda e em consequência disso o seu casamento vem sendo adiado.
Sganarelo responde:
 
E quem é esse pedaço de asno que não quer que a sua mulher seja muda? Prouvera a Deus que a minha tivesse tal doença! Não seria eu quem a curasse.
 
Com o desenrolar da peça ficamos a saber que a mudez de Lucinda é uma simples tentativa para evitar o casamento com aquele que o pai lhe arranjara. De facto ela está enamorada do jovem Leandro.
 E a peça vai assim decorrendo neste tom hilariante, caricaturando a actuação de certos médicos e de certos pais que contrariam os amores das filhas. Depois de algumas peripécias constatamos que a peça tem um final feliz
 
Como íamos dizendo o espectáculo ia começar naquele amplo e engalanado Salão de S. Tomás. A plateia rebentava pelas costuras. Para além dos alunos, empregados, prefeitos e professores da Casa, brindavam-nos com a sua presença numerosos convidados vindos de toda a Cidade: professores da Universidade, médicos, benfeitores…
 Ora é neste contexto social que devemos perspectivar a representação e enquadrar o conteúdo das falas, os gestos, os adereços e a forma como se representa, isto é, como se torna presente aqui e agora aquilo que o autor pensou e o encenador interpretou.
Era inevitável que o papel das personagens femininas tivesse que ser desempenhado por seres do sexo masculino. Nos anos de 1960/61 quem se atreveria a introduzir donzelas, para contracenar com os alunos, no Salão de S. Tomás!? Por isso o papel das personagens femininas foi entregue aos alunos.
O encenador não podia deitar os seus créditos a perder. Familiarizado com os meios teatrais da Academia Coimbrã, procurou dar o seu melhor e levar à cena uma representação à altura dos seus pergaminhos. Procurava que nada escapasse ao rigor da representação quer nas falas, quer nos gestos, quer nos adereços.
Como é que Sganarelo poderia examinar a “leitaria” da Ama se nada existisse? È evidente que na lista dos adereços tinha de constar qualquer enchimento que, uma vez colocado no local certo, desse a ilusão da existência da dita. Diga-se em abono da verdade que o actor que assumia o papel de Sganarelo era possuidor de um “dedo maroto” que, ao aproximar-se dos seios da Ama, reforçava o efeito hilariante e provocador da cena. Por sua vez o actor que fazia de Ama via-se obrigado a fazer certos trejeitos e requebros próprios de mulher que quer, mas vai dizendo que não quer. Para que tudo fosse perfeito ou quase não podiam faltar aqueles risinhos estridentes tão característicos duma mulher requestada. E esta actuação não caía do céu, mas era fruto de uma interacção e de um trabalho árduo e diário do sábio encenador e dos aprendizes de actor.
A representação ia de vento em popa e, diga-se, com uma certa qualidade estética. Os actores tinham aprendido bem a lição e o seu desempenho estava a ser eficaz. Não fora assim e talvez as sequelas dos dias e meses subsequentes tivessem sido bem diferentes.
É que, a presidir a toda esta representação, estava o Senhor Arcebispo, acompanhado de várias individualidades. No dizer de Virgílio “Hoc opus, hic labor est”. Quanto mais os actores se esforçavam por um melhor desempenho, tanto mais se enterravam, a eles, ao encenador e a quantos, por uma certa incúria, não tinham acautelado os bons costumes e a reputação daquela Casa. Houve quem, escandalizado, sorrateiramente abandonasse a sala, houve quem ao longo dos dias proferisse impropérios contra quem permitiu que “seminaristas disfarçados em pessoas de outro sexo” estivessem ali, em pleno palco, à frente de pessoas decentes, a dar aquele espectáculo degradante. – Até dá ideia que os rapazes tinham representado mesmo bem! –
Nas semanas seguintes não se falava de outra coisa, embora um pouco em surdina. Corriam boatos de punição dos alunos/actores, falava-se de suspensão e havia até quem proferisse a terrível palavra “expulsão”. Foram tempos agitados, sobretudo para quem na instituição tinha a responsabilidade máxima.
Com a devida vénia atrevo-me a transcrever o que a este respeito escreveu D. Manuel de Almeida Trindade no seu livro – MEMÓRIAS DE UM BISPO.
“Curiosamente, apesar das surpresas alegres que me foram aconte­cendo ao longo da vida, eu tinha previsto que 60-61 seria um ano doloroso para mim. Existe em nós um radar especial cujos meca­nismos eu não sou capaz de explicar.
O primeiro motivo de sofrimento deu-se por altura do Carna­val. Para além dos actos de piedade que constituíam a celebração da missa solene – uma no Domingo, outra no próprio dia de Carnaval as respectivas procissões eucarísticas e a adoração das 40 horas, por turnos, durante o dia e a noite, havia, no final, para não esquecer totalmente a época em que se estava, uma representação teatral. Lembro-me de que a peça escolhida tinha sido O Médico à força, de Molière. A certa altura da representação, D. Ernesto, que tinha sido convidado para assistir, começou a ficar visivelmente contrafeito.
Foi um momento desagradável para mim, que, apesar das minhas ocupações na Universidade, continuava a ser reitor no Seminário. Confiado em pessoas responsáveis, a quem entretanto faltou coragem ou sensibilidade, eu não me preocupei em ver como a comédia ia ser encenada. E alguns alunos apareceram vestidos de mulher, em cenas... bem, em cenas de consultórios de... médico de mulheres! Ainda se o público fosse limitado a D. Ernesto e aos do Seminário!... Mas os alu­nos haviam convidado pessoas de fora. Que ideia levariam elas da formação proporcionada naquela casa? D. Ernesto, com a sua delicade­za habitual, chamou-me a atenção para o caso. E tinha inteira razão. Lição dolorosa esta! Ficou-me para a vida.
(…)  Ora aconteceu que os factos do Carnaval - com os pontos que no conto aumenta cada um chegaram ao conhecimento de ex-alunos (alguns tinham mesmo sido testemunhas oculares da representação). O que é que lhes passou pela cabeça? Promoverem como que uma espécie de desagravo ao Reitor do Seminário.
Constituiu-se urna comissão para o efeito. Se a memória me não falha, andou ali a mão de Eurico Dias Nogueira... de Manuel Paulo... e de outros. O Senhor Arcebispo foi posto a par do que se pretendia fazer e não só não pôs qualquer entrave, corno estimulou a comissão encarregada da homenagem no sentido de tudo decorrer com a digni­dade requerida.
Vieram alunos de todos os pontos do País. Alguns deles não se viam há muito tempo: foi uma ocasião de encontro que a todos causou o melhor agrado.
Guardo um álbum, com numerosas fotografias, que não só me relembram caras conhecidas, como os vários momentos da homena­gem: desde os discursos proferidos da cátedra da "aula dos azulejos", até ao refeitório primorosamente decorado pelas irmãs do Amor de Deus – desde há mais de cinquenta anos ao serviço do Seminário –, ao almoço encerrado com um brinde do Senhor D. Ernesto. Há também uma foto tirada em conjunto na escadaria que dá para o recreio dos teólogos.”
publicado por beatonuno às 17:44
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2 comentários:
De Ver para crer a 4 de Outubro de 2006 às 13:07
Luís Carlos:
Não me queria ver na situação do então Reitor do Seminário, o futuro bispo de Aveiro, D. Manuel de Almeida Trindade!
Mas como espectador, adorei a representação.
Que grandes actores tínhamos nese tempo, no nosso Seminário de Coimbra!...
Tu e o Borges estavam no top.v
De lamire a 6 de Outubro de 2006 às 18:45
Estas crónicas são importantíssimas. Beato Nuno e os ex semis de Coimbra já mereciam isto há muito. Ainda vamos a tempo de escrever muita coisa quase esquecida.
parabéns por mais esta. E não foi à força...

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