Quarta-feira, 5 de Julho de 2006

O PILHA-GALINHAS

Uma das figuras mais típicas da tradição coimbrã era o “Pilha-Galinhas”. Durante as longas noitadas a rapaziada assaltava os quintais da vizinhança com o intuito de “raptar” uma galinha ou um frango que, para além da brincadeira em si, viria mitigar a voracidade da trupe estudantil.
Mas como diz o ditado popular “Quem não tem cão, caça com gato”. Por isso no Seminário, associando a brincadeira a uma certa diversificação da ementa seminarística, a malta, em vez de atacar directamente a galinha, contentava-se com o ovo. Era mais simples a tarefa. Isto de ter de matar o bicho e, sobretudo, de ter de o depenar e limpar, tem que se lhe diga. Por múltiplas razões era mais fácil atacar o ovo.
Como em tudo na vida, há sempre os especialistas, os técnicos particularmente preparados para a execução de determinadas tarefas. A uns cabia o assalto à capoeira, a outros a confecção e a todos o são e agradável convívio em torno dos ovos fresquinhos acabados de cozinhar.
Esperava-se a ocasião mais oportuna em que o “Ti Miguel” lá do sítio ia dormir a sesta ou apanhar umas tristes couves lá bem no fundo da quinta. A operação era minuciosamente preparada, não fosse aparecer alguém estranho ao “serviço” que de repente gritasse: - “Apanha que é ladrão!”. Enquanto os “artistas” sorrateiramente se infiltravam no galinheiro tentando não alvoroçar as galinhas e evitando assim um reboliço que seria fatal para o sucesso de tão melindrosa operação, outros, cúmplices, colocavam-se estrategicamente nas varandas e janelas sobranceiras ao Mondego e ao Colégio das “primas”, inspeccionando o terreno em redor e alertando para qualquer movimento estranho ou anormal.
Executada a captura, logo se dirigiam com a “pilhagem”, coberta pelas longas capas negras, para um refúgio seguro e recatado na “Quarta” prefeitura.
Agora entravam em acção os “mestres da culinária”. Havia um que – Santo Deus – era mesmo um assombro! Fizera um estágio lá para os lados da barragem da Bouçã com a menção de Excelente.  Aliava a técnica de electricista a um saber gastronómico inigualável. A verdade é que não havia um simples fogareiro quanto mais um fogão, mas isso não constituía obstáculo intransponível para um artista como este que dos fios fazia sair a luz e o calor suficiente para cozinhar os ovos. Tacho também não havia, mas o jarro da água do lavatório servia bem. Cada um tem as suas especialidades.
Pela calada da noite os “semis” já se acotovelavam no exíguo espaço do quarto num alvoroço desusado. Mas era preciso manter a calma e não transformar o aposento num galinheiro com tantos galos a tagarelar. Depois de tanto esforço ia-se deitar tudo a perder? Nem pensar! Agora que o “trabalhinho” fora levado a bom termo não se podia estar a chamar a atenção do prefeito. De mais a mais o silêncio da noite tornava mais perceptível qualquer ruído. Como diz o provérbio popular, era tempo de comer e calar.
Era o improviso que norteava o nosso electricista/cozinheiro. Ei-lo em acção, recorrendo a uma fialhada velha que lá tinha. Em tempo de guerra não se limpam armas. Vai daí, atira a fialhada para dentro do jarro e liga o outro extremo do fio à corrente eléctrica. Começa a desenrolar-se um processo químico entre os pólos positivo e negativo que vai aquecendo a água. Mas como a necessidade aguça o engenho, o nosso “engenhocas” descobriu que uma pitadinha de sal não só acelerava o processo químico de aquecimento, mas também contribuía para o tempero dos ovos. - Tudo perfeito – pensava – sorrindo e esfregando as mãos de contente. A rapaziada por seu lado, lançando um olhar guloso para o jarro de esmalte, salivava, salivava… só de pensar no petisco. Um pouco mais e estaria tudo pronto.
A água porém custava a aquecer e o nosso técnico lança mão de mais alguns fios numa tentativa de acelerar a fervura e de parar com tanto salivar. Agora sim, isto vai mesmo.
Eis senão quando o quarto se ilumina com um relâmpago infernal seguido dum imenso estrondo, como se de um trovão se tratasse, e, subitamente, tudo mergulhou em profunda escuridão. Lá se foram os fusíveis!
Já o prefeito espavorido, em trajes de noite, corria pelo corredor fora em busca do acontecido, mas ninguém arredou pé do local onde estava. Um silêncio profundo se abateu sobre aqueles espaços vazios. Não se via viva alma.
Amainada a tempestade, os “semis” ávidos de ovos cozidos limitaram-se, em silêncio, a degustar uns simples ovos escalfados. Vale mais um ovo escalfado no papo do que uma dúzia na capoeira.
publicado por beatonuno às 17:02
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3 comentários:
De M a 12 de Julho de 2006 às 14:39
Estes semis sairam-me uns tratantes!!!
Abraço dum ex
De lamire a 30 de Agosto de 2006 às 02:46
Não haja dúvidas que estas crónicas merecem um bom registo, talvez até, em papel.
De MVP a 7 de Setembro de 2006 às 21:04
Parabéns pela prosa.
Esses acontecimentos merecem ser imortalizados.
Um abraço

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