Terça-feira, 27 de Junho de 2006

A GALENA - PARTE II

Como íamos dizendo, havia sempre olhos e ouvidos atentos a um gesto desprevenido ou incauto, a um som extraviado ou tresmalhado, a uma informação que circulasse fora do rebanho. A desgraçadinha da Galena sofria de uma tenaz perseguição e, infelizmente, surgia aqui e ali um delator que, na ânsia de ficar bem visto aos olhos do Poder, denunciava Por isso todo o cuidado era pouco Era preciso ter engenho e arte para diversificar e disfarçar o formato e a localização da Galena. Havia quem a instalasse numa simples caixa de fósforos que inocentemente repousava em cima da mesa de estudo.
Um certo dia entrou de rompante pelo quarto adentro, com um mandado de busca e captura, o prefeito. - A Galena, quero a Galena – repetia resoluto o nosso homem revestido de negra sotaina Só de ouvir estas palavras de ordem já a Galeninha toda se encolhia na perspectiva de não ser vista, nem ouvida e muito menos capturada. Mas o vozeirão repetia: - A Galena, dá para cá a Galena.
Nestas circunstâncias era necessário manter a calma e o sangue frio e, sobretudo, que naquele momento tão grave a Galeninha não piasse.
Não adiantava dizer ao prefeito que não havia Galena, que fora pura invenção, que procurasse, se não acreditava, que revistasse o quarto, que escarafunchasse em tudo o que era fios e caixas e caixinhas, que remexesse a secretária, a mala já cheia de pó, o roupeiro, que revolvesse a pequena estante, que revirasse o colchão e os cobertores, que vasculhasse debaixo da cama (cuidado com os rolos de cotão!). O delator já dera todas as indicações e traçara o perfil do “criminoso” e o local do “crime”. Já não adiantava fingir ou assobiar para o lado. A fuga era impossível e, por isso, havia que assumir tudo até às últimas consequências.
A história já registava até casos bem insólitos de consequências bem funestas. Desde o “Gooooooolo…” gritado em pleno acto litúrgico que coagira ao degredo temporário um fazedor e amador de Galeninhas, até à aplicação de outras penas quiçá mais brandas. Afinal esta pequena comunidade reflectia a sociedade portuguesa da época que estava em perfeita consonância com este tipo de actuação: o mínimo de comunicação social por causa das ideias “comunistas” e “laicas” que circulavam. O “Mundo” lá fora era impuro, inadequado e impróprio para tão santa gente.
Como não havia outra saída, havia que aguentar até às últimas consequências. Seja o que Deus quiser. - Pois sim, senhor prefeito, esteja descansado que depositarei em suas santas mãos o “aparelhinho”. Saiba Vossa Senhoria que a sua ordem será escrupulosamente cumprida. Por favor, dê-me mais uns momentos para me poder despedir convenientemente da Galeninha e logo à tardinha a conduzirei sob custódia ao seu escritório.
A Galeninha, ao ouvir isto, já toda tremia e cada vez mais se encolhia para não ser detectada. Já se sentia aprisionada por detrás de espessas grades ou a ser lançada na escuridão de alguma gaveta como nas profundezas duma masmorra. Ela que nascera para falar e cantar, para divertir e alegrar, ali permaneceria para todo o sempre queda e muda, silenciada pelos esbirros de Sua Excelência.
- Pois seja como pedes, mas de hoje não passará – respondeu o prefeito retirando-se,
Naquele quarto silencioso começou a ouvir-se um surdo lamento, depois um choro soluçado que metia dó. O que se estará a passar? Apurado o ouvido concluiu-se que era mesmo a infeliz Galeninha que se sentia traída, atraiçoada por aquele a quem tanto se dedicara. Nem queria acreditar no que tinha acabado de ouvir. Ser entregue por um Judas, assim sem mais nem menos. - Não merecia isto, dizia a Galeninha, soluçando convulsivamente.
Era de quebrar o coração! Só Deus sabe o que custaria entregar ao fim da tarde aquela companhia tão amiga e tão agradável construída pecinha a pecinha com tanto amor e carinho! Aquele detector de germânio, aqueles botõezinhos e aqueles longos fiozinhos sedosos que costumava acariciar, que falta lhe iam fazer! O gosto amargo da saudade invadia-o todo, penetrava-o até à medula dos ossos. Era uma angústia indescritível! Passar a noite sem ela naquela solidão do quarto ainda seria bem pior! Teria que tomar algum tranquilizante para aguentar a dor da alma e passar melhor a noite – pensou.
Pegou-lhe carinhosamente pela última vez, como quem se despede para todo o sempre. Mas agigantava-se logo entre eles a sombra negra do prefeito como um abismo intransponível.
Ela, envolta em lágrimas, não o queria largar e entoava-lhe uma melodia suave e encantatória que o enleava cada vez mais. Naquele enleio, naquele sonhar acordado começou a surgir um raio de esperança num futuro venturoso para quem tanto se amava.
De repente foi-se a uma caixa velha cheia de parafusos, de fichas eléctricas, de porcas, de fios partidos e esfarrapados e foi enfiando um pedaço de cada um daqueles trastes velhos para dentro de uma pequena caixa de plástico já desactivada que fora outrora uma galena. Colocou-lhe cuidadosamente uma tampa para que a fialhada não caísse. Ora cá está o presente para o prefeito.
Chegada a hora aprazado, seguiu a caixa para o escritório do prefeito. Este, um pouco nervoso, mandou entrar. A caixa foi depositada em suas mãos, como combinado. O prefeito que nunca tinha visto em sua vida uma galena, recebeu o objecto com todo o cuidado, prometendo tratá-lo bem e agradecendo o belo e nobre gesto do súbdito.
publicado por beatonuno às 11:28
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