Sexta-feira, 11 de Julho de 2008

JÁ NÃO É SEM TEMPO

 

O Papa já deu o seu aval à publicação do decreto que reconhece um milagre atribuído ao futuro Santo português Beato Nuno Álvares Pereira e a suas virtudes heróicas.

O Beato Nuno de Santa Maria (1360-1431) foi beatificado em 1918 pelo papa Bento XV, e nos últimos anos, a Ordem do Carmo (onde ingressou em 1422), em conjunto com o Patriarcado de Lisboa, decidiram retomar a defesa da causa da canonização. A sua memória litúrgica celebra-se, actualmente, no dia 6 de Novembro.
A cura milagrosa reconhecida pelo Vaticano foi relatada por Guilhermina de Jesus, uma sexagenária natural de Vila Franca de Xira, que sofreu lesões no olho esquerdo por ter sido atingida com salpicos de óleo a ferver quando estava a fritar peixe.
A cura de Guilhermina de Jesus, depois de ter pedido a intervenção do Santo Condestável, foi observada por diversos médicos em Portugal e foi analisada por uma equipa de cinco médicos e teólogos em Roma, que a consideraram inexplicável e, por isso, miraculosa.
 
Informação d´O AMIGO DO POVO

publicado por beatonuno às 15:49
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Quinta-feira, 3 de Julho de 2008

Dos Calhaus da Diocese Bracarense à Mina Braguesa

 

Quem, com a devida emoção, respeito e veneração, iniciar uma romagem aos diversos santuários da Antiguidade Bracarense, instalados no Museu D. Diogo de Sousa, depara-se, no piso da entrada, com um amplo corredor ao longo do qual se pode ir apreciando uma breve abordagem à história do Museu e onde avultam, como colunas dum pórtico sagrado, dois dos precursores da arqueologia bracarense: as figuras do Dr. Pereira Caldas e de Albano Belino.
José Joaquim da Silva Pereira Caldas era natural das Caldas de Vizela, onde nasceu a 26 de Janeiro de 1818. Tendo feito os estudos secundários em Guimarães, matriculou-se depois na Universidade de Coimbra onde concluiu os estudos superiores.
Depois de uma breve passagem pelo Liceu Nacional de Leiria, o Dr. Pereira Caldas, fez toda a sua carreira docente no Liceu Nacional de Braga, desde Novembro de 1846, como professor proprietário e vitalício na área da Matemática.
Foi nesta cidade que desenvolveu, a par da sua carreira docente, toda uma actividade de intervenção política, cultural e cívica nos mais diversos sectores da sociedade portuguesa e, sobretudo, da sociedade bracarense, desde a sua participação nas lutas liberais até à publicação de numerosíssimos artigos em jornais e revistas da época e de múltiplos opúsculos.
 Embora nascido nas Caldas de Vizela o Dr. Pereira Caldas considerava-se filho adoptivo da cidade de Braga. E de facto esta cidade acolheu-o e, após a sua morte ocorrida em 1903, determinou, em sessão camarária, atribuir a uma artéria da urbe o nome do Dr. Pereira Caldas para que ficasse na memória dos bracarenses a figura deste “sábio professor, bibliófilo notável, democrata ardente[1].
Foi, de facto, um bibliófilo notável. O Dr. Pereira Caldas possuía uma riquíssima biblioteca particular onde abundavam excelentes obras de peritos nacionais e estrangeiros relacionadas com a Arqueologia e a Epigrafia.
 
“Albano Ribeiro Belino nasceu no dia 18 de Dezembro de 1863 em Gouveia. Chegou a Guimarães em Julho de 1876, para se iniciar no ofício de marçano na tabacaria de José Joaquim de Lemos.
Desde cedo começou a fazer-se notar pela sua inteligência e espírito de iniciativa.
Reconhecendo as qualidades do rapaz, um dos clientes habituais da Tabacaria Lemos, o cónego António Joaquim de Oliveira Cardoso, poeta e dramaturgo, iniciou-o nas artes da escrita.
No final de Abril de 1881, casou com Delfina Rosa, sobrinha do Cónego António de Oliveira Cardoso, cuja casa frequentava. O matrimónio, com uma mulher que já ultrapassara os 43 anos, trouxe-lhe a fortuna e levou-o a instalar-se em Braga. Será aí que, inspirado na obra e no exemplo de Martins Sarmento, dará início às suas prospecções arqueológicas e se tornará uma figura incontornável da arqueologia portuguesa da viragem do século XIX para o século XX.
A morte levou-o cedo. No final de Novembro de 1905 foi acometido por um ataque apopléctico, de que resultaram graves sequelas, incluindo a paralisia parcial do ladodireito. Não recuperaria deste acidente, vindo a falecer no dia 2 de Dezembro do anoseguinte, sem ter completado os 43 anos de idade.
Partiu sem ver concretizado o sonho que alimentara muitos anos: a abertura de um Museu Arqueológico em Braga, onde projectara depositar os objectos que coleccionou ao longo de mais de uma década. E partiu com uma forte amargura em relação à cidade onde se fez arqueólogo, devido à atitude de desprezo em relação à memória material do passado, então dominante em Braga.
Logo após o falecimento de Albano Belino, a sua viúva deu conta ao Presidente da Sociedade Martins Sarmento de que era vontade do seu marido, e sua, que o museu arqueológico que possuía em Braga, e que continuava alojado provisoriamente em condições precárias no Paço Arquiepiscopal, passasse a fazer parte do Museu Arqueológico da Sociedade Martins Sarmento, doando a esta Instituição de Guimarães os objectos que compunham o respectivo espólio.”[2]
 
Albano Belino ao instalar-se em Braga, após o seu casamento, encontrou no Dr. Pereira Caldas um apoio seguro no que respeita aos estudos científicos referentes à Arqueologia e Epigrafia. Como Albano Belino não possuía qualquer diploma escolar, era um autodidacta, a “opulenta livraria” do Dr. Pereira Caldas, colocada à sua disposição, foi-lhe de extrema utilidade. Com a data de 2 de Fevereiro de 1895, Albano Belino escreve, numa espécie de prefácio ao seu livro[3] de inscrições romanas de Braga, o seguinte: Convencidos, porém, do quanto pode a vontade e o esforço, procurámos superar essas dificuldades, que fariam recuar talvez outros como nós ainda noveis no assunto: e prosseguimos animado por dois respeitabilíssimos amigos nossos, o sr. Dr. Martins Sarmento, de Guimarães, (que muito nos instigara a estas investigações), e o sr. Dr. Pereira Caldas, de Braga, que generosamente nos confiara da sua opulenta livraria os melhores trabalhos de epigrafia romana.
Deste sábio professor-decano do Liceu desta cidade, temos em nosso poder a seguinte carta, de que fizera acompanhar a primeira remessa de livros do nosso pedido:
«Não abandone os estudos epigráficos encetados, e de que me diz ter dado noticia ao Dr. Martins Sarmento, de Guimarães, que é uma biblioteca viva em assuntos arqueológicos, em todos os ramos amplíssimos desse vastíssimo tronco.
Exigem esses estudos muita paciência e muitos subsídios, para o estudioso da espécie não ser arqueólogo de nome, e falsificador de facto, como o fora o enfatuado Machado do século seiscentista — Gaspar Álvares de Lousada Machado — deixando esse apelido em execrando renome.
Tem sempre achado em mim o Albano Bellino a máxima franqueza, em pôr à sua disposição os meus livros, e os meus conselhos.
Não é isto favor especial: é procedimento meu para com todos os estudiosos e filho da educação da juventude, graças á ilustração de meu nunca olvidado pai (…).
Sabe por experiência o Albano Bellino, como por muitos estudiosos do país, e não poucos de fora dele, é de contínuo, frequentada a minha livraria, onde eles acham subsídios literários, que por vezes não encontram em nenhumas outras.
Conte por isso plenamente, agora e sempre, com a permissão do manuseamento dos meus livros, onde achará anotações minhas em quase todos os de mais uso.
Aproveite-se de tudo à vontade, para nunca o poderem alcunhar de COPISTA FALSIFICADOR, como fora esse Machado seiscentista - arquivista literário da Sé Primacial — mais rebaixado afinal no estádio que o limo das águas estagnadas, e a podridão da vasa das marés.
Compulse o Albano Bellino os indículos indispensáveis ao arqueólogo novel, para luminosa iniciação, e regrada direcção, no espinhoso assunto da EPIGRAFIA ROMANA.
Lembrar-lhe-ei por exemplo — e para exemplo apenas — alguns especimens no caso.
Darei o primeiro lugar ao venerando ancião lisbonense, o indefesso consócio arqueólogo Joaquim Possidónio Narciso da Silva, com as suas Noções Elementares de Arqueologia, ilustradas com numerosas gravuras.
E darei o segundo lugar, como elucidação amplíssima a essas Noções Elementares, à Introduction á l’étude de l’archeólogie de Millin, sem esquecer concomitantemente o Resumé complet d’archeólogie de Champollion Figeac.
Não ajunte a estes preliminares o Albano Bellino — no alvo de não sobrecarregar-se demais em seus inícios profícuos — senão o Cours d’épigraphie latine de Cagnat, e o Dictionnaire des antiquités romaines et grecques de Rich, todo repleto de numerosíssimas gravuras — ou ainda o trabalho análogo de Daremberg & Saglio.
E quando muito, meu Albano Bellino, auxilie-se ainda dos Elements d’archeólogie nationale de Batissier, onde achará uma curiosa bibliografia extensa, facilitadora de fontes e recursos nos multíplices ramos do grande tronco arqueológico.
Em relação ao Reverendo Teatino D. Jerónimo Contador d’Argote — de que não pode o Albano Bellino prescindir no seu estudo de EPIGRAPHIA ROMANA em relação a Braga — duas indicações me cumpre fazer-lhe desde já, no alvo de não emaranhar-se improficuamente nos volumosos escritos do indefesso religioso.
E’ minha indicação primeira — o não servir-se nunca do Reverendo Teatino, a não ser apenas como ÍNDICE LOCALISATIVO das inscrições que ele transcreve, confiado demais na fé de copistas ignorantes — senão talvez de copistas falsários — imitadores embusteiros do arquivista primacial MACHADO, a quem terá o mundo literário como desdouro dos filhos da capital do Minho, dedicados com fervor á indagação escrupulosa da verdade histórica, mediante o auxilio de testemunhos que a documentam.
E de só para esse ÍNDICE LOCALISATIVO nos pode servir o Reverendo Teatino, já eu indicara isso na minha CARTA EPIGRÁFICA ao indefesso autor do Portugal Antigo e Moderno — Augusto Soares de Azevedo Barbosa de Pinho Leal.
E aí roborara eu inconcussamente essa minha indicação, em palavras endereçadas então ao falecido Pinho Leal, e agora igualmente aplicáveis ao Albano Bellino:
Abra o meu amigo as Notícias Arqueológicas de Portugal, escritas em alemão pelo Dr. Emílio Hübner; e vertidas em português pelo nosso finado confrade Augusto Soromenho, por ordem da Academia Real das Ciências de Lisboa: — e achará na página 4 a confirmação do meu aludido asserto, nestas palavras do sábio arqueólogo de Berlim:
«Argote, preocupado com a ideia de encher os seus in-folios, reproduziu quase na íntegra asmemórias que lhe vieram às mãos, sem lhes adicionar cousa alguma essencial; mas também sem lhes fugir aos erros no texto das inscrições e na designação dos lugares».
E visa a minha indicação segunda — a que somente manuseie o Reverendo Teatino em conformidade com a coordenação dos seus grossos volumes, que já em vida do indefesso autor — pelo desordenado do contexto respectivo — eram apelidados pela crítica zombeteira a História dos Calhaus da Diocese Bracarense. (…)
Não dê ouvidos o Albano Bellino à crítica invejosa — oriunda sempre dos ignorantes enfatuados — com presunção de sábios insubstituíveis (…).
Só por esse modo podem eles singularizar-se no estádio literário, onde intentam ousadamente associar-se aos cultores das letras que os repelem, por não poder ser estábulo esse estádio, nem poder idear-se para esses intrujões uma associação, com abstracção prática da conjunção copulativa argola.
O Albano Bellino conhece-os de sobra, a fim de arredar-se deles para longe, cônscio do que é e do que vale, e do nada que são esses histriões da crítica insolente, petulante, e colareja. (…)
E agora, meu Albano Bellino, finalizo com o mesmo exórdio desta minha missiva:
«Não abandone os estudos epigráficos encetados».
 
Lembre-se dos dois versos de CAMÕES nos Lusíadas — Canto I. Est. XL:
«Não tornes para traz; pois é fraqueza
Desistir-se da cousa começada».
 
E lembre-se ainda doutros dois mais do nosso HOMERO PÁTRIO — Canto X. Est. CXLV:
«O favor, com que mais se acende o engenho,
Não o dá a pátria — não».[4]
 
Neste contexto e considerando a referida data de 2 de Fevereiro de 1895, será interessante reler e confrontar o conteúdo desta carta com alguns excertos da correspondência[5] trocada entre o Dr. Martins Sarmento e Albano Belino, no período imediatamente anterior e posterior a esta data.
Embora os estudos arqueológicos já viessem a ser empreendidos entre nós desde o século XVI – lembremos André de Resende que criou em Évora o primeiro museu de inscrições romanas e D. Jerónimo Contador de Argote que na região de Braga recolheu vários materiais e publicou alguns tomos sob a epígrafe “Memórias do Arcebispado de Braga” – a verdade é que é sobretudo no século XIX que assistimos a um surto da busca do nosso passado peninsular com o surgimento de figuras que, agora eivadas do espírito positivista e científico reinante, se dedicaram à investigação dos relíquias das civilizações que nos precederam. Surge uma vasta plêiade de nomes que se tornaram célebres no campo da Arqueologia e da Epigrafia: Possidónio Narciso da Silva, Martins Sarmento, José Leite de Vasconcelos, Albano Bellino, Santos Rocha e muitos outros. Uma febre louca tomou estes homens na busca do nosso passado de milénios de cultura e de civilização. Era uma verdadeira loucura semelhante à daqueles que noutras paragens buscavam o ouro escondido. Foi neste contexto que Martins Sarmento, referindo-se à profusão de sucessivos e quiçá inesperados achados arqueológicos em Braga e arredores, utilizou a expressão “mina braguesa”.[6] A notícia de qualquer achado arqueológico era religiosamente guardada e o secretismo mantido como se de um segredo de seita ou de sociedade secreta se tratasse, até que qualquer revista, jornal ou livro a publicasse já devidamente estudada. Nos próprios títulos das obras publicadas, nos prólogos ou prefácios, havia a preocupação de indicar de que se tratava de inscrições “ainda inéditas,” e, para que não surgisse qualquer equívoco, acrescentava-se, de forma pleonástica, “por isso dadas hoje a lume pela primeira vez”.[7]
É no mínimo curioso ler o que se diz e escreve no foro público e no foro privado. Na carta atrás transcrita - que foi tornada pública com a publicação do livro - e nos excertos da correspondência privada entre Martins Sarmento e Belino estão patentes diferentes padrões de comportamento e de relacionamento entre Martins Sarmento e Belino e entre estes e Pereira Caldas.
Vejamos então alguns Extractos da Correspondência trocada entre o Dr. Martins Sarmento e Albano Belino.[8]
 
Um grande achado!
Nada menos de 5 inscrições inéditas, pois foram encontradas junto à antiga muralha da cidade, há menos de 15 anos, segundo os informes dum lavrador. Que pena que a “Revista” saia só lá para Abril! Receio que alguém as encontre e publique primeiro do que nós; mas pode ser que tal não aconteça.
(Albano Belino - Braga, 5 de Janeiro de 1895)
 
Corre perigo a virgindade das inscrições que julgámos inéditas. […]
É que, desde o dia em que lhe [Pereira Caldas] revelei o caso parece que alguém me diz que ele se preparava para me substituir na “Revista”. […]
V. Exa. compreende que no caso de ele me participar o que tenciona fazer, não me convém contrariá-lo, e por isso vamos a salvar ao menos as que julgámos inéditas. Para isso é necessário que V. Exa. me diga daí:
É possível que o homem, à vista desta carta, desista do que se me afigura, e nesse caso eu mostrava-me antes favorável a que todas principiassem a ser publicadas na Revista. Se ele resistir, então será bom aproveitarmos as inéditas já que isso nos deu trabalho.
V. Exa. concorda?
Para disfarçar convinha que o princípio da carta se referisse ao exame do Ídolo ou outra coisa qualquer.
(Albano Belino - Braga, 9 de Fevereiro de 1895)
 
Não esteja com tanta cerimónia com o Pereira Caldas; diga-lhe a verdade, que é o melhor modo de o desarmar; diga-lhe que já me deu as inscrições para a “Revista”, mas que eu disse logo que haviam de ser publicadas com o nome do seu descobridor. Fique certo que o Caldas não se virá atravessar diante de nós; e, se viesse, não ficaria em bons lençóis. Eu, no seu lugar, não punha mesmo dúvida nenhuma em lhe mostrar a cópia das inscrições inéditas, dizendo-lhe o que há, e prevenindo-o logo de que cometia esta inconfidência por ele ser sócio honorário da corporação que publica a “Revista”, pela sua respeitabilidade, etc. […]
Mando-lhe a resposta do Hübner e por ela verá como lá por fora apreciam o que neste país de bananas apenas faz rir.
(F. Martins Sarmento – Guimarães, 12 de Fevereiro de 1895)
 
O alvitre de as publicar em folheto é magnífico, embora fiquem em segredo até sair a “Revista”.
Mas isso mesmo convém não demorar.
Se depois de as minhas saírem na Revista, o P. C. quiser escrever sobre o mesmo assunto, será bom não lhe impedir isso.
(Albano Belino - Braga, 14 de Fevereiro de 1895)
 
Veremos o que faz ou quer fazer o P. Caldas. As inscrições inéditas é que ele não publica na “Revista”, e não creio que vá procurar outro periódico.
(F. Martins Sarmento – Guimarães, 14 de Fevereiro de 1895)
 
Por vezes a situação atingia tais contornos que se aconselhava o novel arqueólogo a tomar atitudes drásticas:
Nem pense em destruir o calhau. Seria quase um sacrilégio. Em caso de perigo, bastará enterrá-‑lo, e dizer fleumaticamente que não sabe dele, ou que o deu.
(F. Martins Sarmento – Guimarães, 16 de Fevereiro de 1897)
 
Pela leitura da carta publicada constata-se que Albano Belino nutria uma certa reverência e grata veneração por aqueles que ele considerava seus “respeitabilíssimos amigos”: o Dr. Martins Sarmento e o Dr. Pereira Caldas. Um porque o instigou à investigação arqueológica, o outro porque lhe pôs à disposição o manancial da sua rica biblioteca e as suas avisadas orientações bibliográficas e sábios conselhos. “Não dê ouvidos o Albano Bellino à crítica invejosa — oriunda sempre dos ignorantes enfatuados — com presunção de sábios insubstituíveis” e ainda “O Albano Bellino conhece-os de sobra, a fim de arredar-se deles para longe, cônscio do que é e do que vale, e do nada que são esses histriões da crítica insolente, petulante, e colareja.”[9]
Por outro lado, a admiração do Dr. Pereira Caldas pelo Dr. Martins Sarmento também se revela excelente “ (…) Dr. Martins Sarmento, de Guimarães, que é uma biblioteca viva em assuntos arqueológicos, em todos os ramos amplíssimos desse vastíssimo tronco.”[10]

No entanto algo de diferente encontramos ao ler a correspondência privada. Parece que nesta corrida ao ouro arqueológico, cada um dos concorrentes se esforça por ser ele a cortar a meta em primeiro lugar e, consequentemente, a receber a coroa de louros, ainda que, se necessário, seja obrigado a “enterrar o calhau”. E, pelo que lemos, havia outros concorrentes de fora que contribuíam mais ainda para complicar a contenda:
“Recebi o n.º da “Pátria”. Vê-se que o Machado anda com pouca sorte, mas o resultado que tiram os espadachins dos seus ataques a torto e a direito não pode ser outro. Também não gostei da vaia jogada ao Caldas pelo J. Leite, mas aí está outro espadachim, que também a cada passo encontra o pago das suas pimponices. Há gente que leva a vida a bater e a ser batida e passa assim excelentemente. Que lhe preste.”
(F. Martins Sarmento – Guimarães, 9 de Outubro de 1895)[11]
 
As relações entre estes homens nem sempre foram tão cordiais como podiam parecer aos olhos da opinião pública. Com a sua luta e as suas lutas, com o seu empenho e persistência, desbravando terrenos inóspitos, foram afinal estes homens os pioneiros que contribuíram para o conhecimento e preservação do nosso passado comum e permitem às gerações actuais e futuras empreenderem um regresso ao passado no Museu D. Diogo de Sousa, na Citânia de Briteiros ou nas diversas instalações da Fundação Martins Sarmento.


[1] Arquivo Municipal de Braga, excerto de Acta de Sessão Camarária, 1912.
[2] Neves, António Amaro das, CatalogoBelinoWeb, Texto Introdutório Da Exposição de Março de 2005,Museu da Sociedade Martins Sarmento, SECÇÃO ALBANO BELLINO.
3] Belino, Albano, Inscrições Romanas de Braga (inéditas). Braga, Tipografia Lusitana, 1895.
4] Idem, ibidem
[5] Martins Sarmento e Albano Bellino – CatalogoBelinoWeb, Extractos da Correspondência (3 de Agosto de 1894 a 22 de Junho de 1899)
[6] Estimo muito que os ventos lhe continuem favoráveis. O meu palpite é que ainda tem muita coisa a descobrir nessa mina braguesa. (F. Martins Sarmento – Guimarães, 5 de Maio de 1896)
[7] Belino, Albano, Inscrições Romanas de Braga (inéditas). Braga, Tipografia Lusitana, 1895.
[8] Martins Sarmento e Albano Bellino – CatalogoBelinoWeb, Extractos da Correspondência (3 de Agosto de 1894 a 22 de Junho de 1899).
 [9] Belino, Albano, Inscrições Romanas de Braga (inéditas). Braga, Tipografia Lusitana, 1895.
[10] Idem, ibidem 
 [11] Martins Sarmento e Albano Bellino – CatalogoBelinoWeb, Extractos da Correspondência (3 de Agosto de 1894 a 22 de Junho de 1899).
 
publicado por beatonuno às 16:19
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