Quarta-feira, 4 de Abril de 2007

A VISITA PASCAL

Àquela hora a azáfama no largo fronteiro à Sé Catedral já era grande. Carros e motoristas aguardavam, ansiosos, o fim das cerimónias pascais para levarem os ajudantes dos párocos para as mais diversas partes da diocese. Dada a extensão das freguesias e a escassez de clero, recorria-se a esta mão-de-obra. Os ajudantes, além de garantirem um breve estágio em contacto com o povo, sempre viam o seu pecúlio aumentado (em tempos de tanta míngua) com alguma gratificação pelo trabalho prestado.
Ei-los que partem com a sua alegria juvenil para mais uma aventura! Ao tempo primaveril associava-se um ansioso entusiasmo.
Cada um, chegado ao local do destino e tomado um almoço avantajado para a jornada da tarde que ia ser longa, partia acompanhado por um séquito de gente de opa vermelha, Cruz Pascal, magnificamente engalanada, caldeirinha de água benta com o respectivo hissope e a indispensável campainha que ia anunciando lá à frente a chegada da Cruz e do Senhor Prior. O toque festivo dos sinos e uma descarga de foguetes anunciava a toda a freguesia a saída das Cruzes.
A visita pascal decorria em passo acelerado porque a volta ainda era grande. Havia terras em que o núcleo populacional, que constituía o centro da freguesia, era deixado para o pároco, por vezes já mais idoso, e ao “caloiro” estavam destinadas as casas que se encontravam mais afastadas, constituindo estas, por vezes, quintas rurais bem distantes.
No ar festivo pairava o aroma fresco do alecrim, espalhado à porta de cada casa e matizado aqui e ali com pétalas de rosa e de camélias.
Naquele tempo ainda se associavam ao cortejo pascal os miúdos da terra que corriam de casa em casa à espera de algum pedaço de bolo esquecido ou de alguma amêndoa perdida. Era dia de festa na aldeia! Aqui e ali também acompanhavam a comitiva as meninas da terra que, em pequenos grupinhos, iam lançando, por entre risinhos excitados, os olhos gulosos e algumas graçolas sobre o jovem aprendiz de Sr. Prior. Este, por sua vez, ao aspergir com água benta as pessoas presentes no interior das casas, aproveitava para lançar uma dose bem mais copiosa sobre as ditas meninas, tentando afastar para bem longe, com a água benta, estas “tentações da carne”… mas em vão. Até a água pegava fogo!
Os mordomos e demais homens de opa vermelha não queriam deixar por mãos alheias a larga prova de vinhos que se lhes deparava em sucessivas mesas festivas. Uns porque eram primos, outros porque eram compadres, outros simplesmente porque era dia de festa, não deixavam de beber aquele néctar saído há pouco dos pipos de uma fresca adega. O homem da campainha ao sair de cada casa visitada, redobrava o toque da campainha. Entrava já numa espécie de delírio, de fúria dionisíaca e não havia mãos a medir. Lá bem à frente ele sentia-se o percursor da Cruz e do cortejo e não abdicava da sua missão. Por isso tocava, tocava que era um louvar a Deus! No meio dos verdes campos a escorrer água, o homem da campainha já só escorria vinho
Subitamente fez-se um silêncio profundo. O tilintar da campainha esvaiu-se de todo. O que teria sucedido? Teria dado alguma coisa ao nosso homem? Acorreram os comparsas e viram o homem debruçado sobre a verde relva dos campos, como que procurando uma pérola perdida. Com o redobrar enérgico do toque, o badalo soltara-se e escapara daquele martelar de cabeça nas bordas da campânula de bronze. O homem, bem encharcado, buscava com a embriagada vista o badalo perdido. Quanto mais se debruçava sobre a terra, tanto menos força tinha para se erguer. Tantos trabalhos para nada! Do badalo nem sinal.
A situação caricata acabou por provocar o riso e a galhofa dos acompanhantes. Alguns berravam: “Olha este perdeu o badalo”. Outros gritavam: “Logo a mulher vai perguntar-lhe pelo badalo”. Estas e outras chulices corriqueiras beirãs cruzavam-se no ar festivo.
Agora, apenas ao longe se ouvia o estralejar dos foguetes que ecoava nos montes vizinhos, anunciando a chegada da Cruz Pascal.
publicado por beatonuno às 23:11
link do post | comentar | ver comentários (5) | favorito
|

.mais sobre mim

.pesquisar

 

.Junho 2009

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
29
30

.posts recentes

. EM POMBAL NADA FAZ MAL - ...

. EM POMBAL NADA FAZ MAL - ...

. HERÓI E SANTO

. BEATO NUNO PROMOVIDO A SA...

. JÁ NÃO É SEM TEMPO

. Dos Calhaus da Diocese Br...

. AS ORAÇÕES ESCOLARES NO L...

. O POTE DA VERDADE

. BRACARA AVGVSTA

. COIMBRA

.arquivos

. Junho 2009

. Abril 2009

. Fevereiro 2009

. Julho 2008

. Maio 2008

. Fevereiro 2008

. Janeiro 2008

. Dezembro 2007

. Novembro 2007

. Outubro 2007

. Junho 2007

. Maio 2007

. Abril 2007

. Março 2007

. Fevereiro 2007

. Janeiro 2007

. Dezembro 2006

. Novembro 2006

. Outubro 2006

. Julho 2006

. Junho 2006

. Maio 2006

. Abril 2006

. Março 2006

.links

blogs SAPO

.subscrever feeds