Quinta-feira, 11 de Janeiro de 2007

A ORAÇÃO DA NOITE

O dia estava a chegar ao fim. Terminado o recreio, seguia-se a recitação do terço, de cá e para lá e de lá para cá, para não adormecer e para os pés não arrefecerem – dizia-se.
Depois, os alunos da terceira e da quarta prefeitura dirigiam-se, embrulhados em suas capas negras, para a Capela. Era a hora da oração da noite, antes de recolherem aos seus quartos. Havia um formulário tipificado que era orientado por cada um dos alunos, na sucessão dos dias.
Alguns, já ensonados, aproveitavam aqueles momentos do exame de consciência para penetrar no consciente e bem fundamente no inconsciente e mais profundamente no sono e nos sonhos. Um silêncio pairava no ar e propiciava um mergulho ainda mais profundo. A voz estridente do “presidente”, ao retomar as orações, soava para alguns como um toque de clarim vibrante a convocar todos à oração final.
Lá iam acordando como podiam, bem aconchegados nas suas capas.
Era usual rematar-se a oração da noite com uma invocação ao santo do dia.
Ora naquele dia o “presidente” resolveu não invocar o santo do dia indicado no calendário litúrgico. Para variar um pouco e tirar a assembleia daquela letargia em que estava mergulhada, foi-se ao missal e tirou de lá o nome de um dos santos mártires que andam liturgicamente associados “S. Gervásio e Protásio”.
Em tom firme e bem audível bradou: - “S. Gervásio”. Esperando que a assembleia respondesse em coro: -“Rogai por nós”.
Naquele dia estavam os alunos um pouco mais acordados do que o habitual e, ao ouvirem tal invocação, despertaram de todo da sonolência que os envolvia. Uma risada geral ecoou por todo o espaço da Capela e poucos foram, muito poucos, os que conseguiram responder “Rogai por nós”.
Estava instalada a confusão geral e a custo os mais sisudos tentavam conter o riso.
Álea jacta est! (Os dados estão lançados!) – pensou o aluno presidente. A palavra saiu e já não tinha retorno. Agora havia que arcar com as consequências, porque lá atrás estava o prefeito, de olhos e ouvidos bem atentos a qualquer desvario. Já não se podia ser devoto de tal santo, meu S. Gervásio do coração!
Seguiram-se as cenas habituais nestas circunstâncias. A espera imediata feita pelo prefeito à porta da Capela, a chamada ao reitor no dia seguinte, a audição do arguido, a leitura da sentença. Durante três dias consecutivos, à hora do recreio, enquanto os outros alunos se divertiam, jogando, o réu, encostado a uma das árvores do recreio, devia assegurar que essa árvore não cairia em cima de qualquer um dos seus colegas. Foi esta sentença escrupulosamente cumprida, prestando assim o réu um valioso e relevante serviço á comunidade.
Lá no céu o bendito S. Gervásio sorria….
publicado por beatonuno às 16:01
link do post | comentar | ver comentários (4) | favorito
|

.mais sobre mim

.pesquisar

 

.Junho 2009

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
29
30

.posts recentes

. EM POMBAL NADA FAZ MAL - ...

. EM POMBAL NADA FAZ MAL - ...

. HERÓI E SANTO

. BEATO NUNO PROMOVIDO A SA...

. JÁ NÃO É SEM TEMPO

. Dos Calhaus da Diocese Br...

. AS ORAÇÕES ESCOLARES NO L...

. O POTE DA VERDADE

. BRACARA AVGVSTA

. COIMBRA

.arquivos

. Junho 2009

. Abril 2009

. Fevereiro 2009

. Julho 2008

. Maio 2008

. Fevereiro 2008

. Janeiro 2008

. Dezembro 2007

. Novembro 2007

. Outubro 2007

. Junho 2007

. Maio 2007

. Abril 2007

. Março 2007

. Fevereiro 2007

. Janeiro 2007

. Dezembro 2006

. Novembro 2006

. Outubro 2006

. Julho 2006

. Junho 2006

. Maio 2006

. Abril 2006

. Março 2006

.links

blogs SAPO

.subscrever feeds