Quinta-feira, 20 de Abril de 2006

O CALCILHO

Se algum estilista da moda da nossa praça se apanhasse hoje com a patente de tal modelo, certamente faria furor nos palcos da moda internacional.
Mas hoje já se não encontra sequer um único exemplar. Talvez que nos anais da arqueologia pré-histórica da moda possamos descobrir alguma referência escassa, ténue e esfumada do dito modelo. Mas tudo sem certezas claras e precisas, sem rigor histórico.
O jogo de futebol decorria com vivacidade. Ambas as equipas, devidamente vestidas, procuravam dar o seu melhor e as claques, que eram aguerridas, apoiavam vivamente a sua equipa preferida. De estranhar era o facto de quando em vez ecoarem pelo estádio, em coro uníssono, as notas musicais: dó, ré, mi, fá, sol, lá, si, dó…., berradas pelas claques.
Embora cada equipa envergasse o equipamento adequado, o guarda-redes de uma das equipas, para proteger as pernas do terreno arenoso, envergava umas calças de ganga azul, sem abertura na braguilha e que, por escassez de tecido, lhe ficavam a meio da barriga da perna. Não é que o guarda-redes fosse alguma torre, mas o modelo das calças é que era único e, portanto, cada um que se arranjasse como pudesse. Para alguns era demasiado largo, para outros extremamente ajustado ao corpo. Mas era este o dito cujo modelo de calças utilizado no Seminário para a prática da Ginástica, crismada posteriormente de Educação Física. Na gíria o modelo era mais conhecido por “calcilho” e no dia da Ginástica todos o enfiavam como podiam. O criador do “calcilho” já deve ter entregue a alma ao Criador. Paz à sua alma! Pena é que não tivesse registado a patente e a tivesse transmitido a algum dos seus descendentes. Seria certamente cobiçado por muitos estilistas arrojados da nossa praça, dada a sua funcionalidade e a visão com que foi criado: já era unissexo!
Ora voltando nós à narração do jogo, constatamos que a bola acabou de ser reposta em jogo pelo guarda-redes do “calcilho” e de imediato aquele vozeirão das claques, em uníssono, berrou: Dóóóóó….É que o guarda-redes, no seu movimento de reposição da bola, sentiu que o seu instrumento, naturalmente inclinado para a esquerda, se tinha pespegado à direita. O modelo apertado do “calcilho” não permitia que a reposição do instrumento se fizesse de modo natural. Era um verdadeiro colete-de-forças, aquele “calcilho”! Daí que o guardião se visse obrigado a fazer uma reposição manual, como se tocasse num instrumento musical ou se visse obrigado a dar uma flautada. A situação repetia-se ciclicamente, sempre que a bola lhe chegava às mãos e ele tinha de a repor. E de cada vez que isso acontecia, as claques, em uníssono, iam subindo o tom da flautada: Dó, Ré, Mi….
Mas se a baliza era mais assediada pelo adversário ou se os golos entravam, logo a tensão nervosa crescia e então era ver o guarda-redes entrar num ritmo estonteante de colcheias e semicolcheias, fusas e semifusas a destempo. Então sim, o solfejo era lido de cabo a rabo em segundos! Era dada a escala toda sem bequadros nem sustenidos. Maldito “calcilho” a quanto obrigavas!
Claro que tudo isto era feito com a maior naturalidade. O guardião nem se apercebia dos gestos mecânicos que executava. Aquelas inusitadas notas musicais das claques tomava-as ele como verdadeiros aplausos, em crescendo, à sua alucinante actuação naquele palco desportivo.
publicado por beatonuno às 16:26
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Segunda-feira, 3 de Abril de 2006

A CHAVE DO ALELUIA

 

A história corria de boca em boca, mas já se escoara na memória dos tempos o quando, o onde, o como, o quem. Tal como nos mitos, o episódio já se tinha transformado numa gesta de tempos passados, irreais e fabulosos, incapaz de renascer e retomar um corpo são e robusto.

Naquela noite de Sábado Pascal a Sé de Coimbra estava repleta de fiéis, de seminaristas, de cónegos para participarem nas cerimónias pascais: a bênção do lume novo, a bênção da água, toda a liturgia que ia culminar no radioso canto do “Glória” acompanhado pelo repicar dos sinos, pelo toque de quantas campainhas o Sr. Américo sacristão conseguira granjear ao longo da semana mais longa.

 

 

     Sé Nova - Coimbra

 

A toda esta ilustre assembleia presidia, na sua cátedra com baldaquino, o Sr. Arcebispo, Bispo de Coimbra.

A celebração pascal que se alongava por horas e horas, decorria com toda a solenidade, com a maior devoção e recolhimento, ouvindo-se apenas as vozes jubilosas do orfeão, estrategicamente colocado no coro alto da Sé, vozes que se dispersavam pela imensidão da abóbada da Catedral.

A noite já ia quase a meio. Aproximava-se a hora precisa e exacta. O “Aleluia” estava prestes a ser aberto. Mas não aparecia a bendita “Chave do Aleluia”! Por mais voltas que se dessem, por mais vezes que as mãos rebuscassem os fundos dos bolsos das calças e das batinas, não se encontrava a bendita chave. O tempo urgia e já a ansiedade e a vergonha tomavam conta do espírito do mestre cerimónias. O grupo dos “roquetes” andava numa roda-viva, vasculhando atrás do altar-mor, em cima e por baixo da credência, em torno do trono episcopal, mas… tudo em vão. O desespero e a angústia ia-se apoderando de todos. Até um ou outro Sr. Cónego mais desperto se ia apercebendo do trágico da situação. Era quase meia-noite e o “Aleluia” por abrir!

Nestas circunstâncias extremas não se pode olhar a meios par alcançar o objectivo final: encontrar a “Chave do Aleluia”.

O Luís Carlos chama discretamente um dos “roquetes”, o Nunes, e pede-lhe que se dirija rapidamente ao coro da Sé e peça ao Borges, um dos membros do orfeão, a bendita chave. Os olhos do Nunes brilham na noite porque se sente o escolhido, o eleito para o desempenho de tão nobre e secreta missão. Não perde um momento. Parece que leva asas nos pés. Percorre a coxia central do templo e voa para a porta que dá acesso à sacristia e ao amplo corredor de pedra. A sua cabeça não pára de ser metralhada pela mesma ideia: “É quase meia-noite e o “Aleluia” por abrir!”. Já no amplo corredor de pedra corre, célere voa. A vasta escadaria de pedra galga-a em segundos, acicatado por aquela ideia angustiante que lhe continua a martelar o espírito.

Sem saber bem como, já está no coro da Sé. Dirige-se ao Borges: “O Luís Carlos pede a chave do “Aleluia”. È quase meia-noite e o “Aleluia” está por abrir.”

Ora manda a verdade que se diga que o “servicinho” não tinha sido previamente combinado. Mas uma verdadeira reminiscência fez chispar a ideia no espírito do Borges. Sem mais aquelas, sai ligeiro do coro e dirige-se para as dependências anexas da Sé que eram ocupadas pelo Sr. Américo sacristão. A escuridão da noite era apenas avivada pelo clarão da iluminação pública que escorria das janelas. Aquele compartimento estava há muito desocupado e apenas servia para guardar trastes velhos. Naquele lusco-fusco o Borges lança a mão e sente um objecto frio, pesado e longo. Mas não há tempo a perder, o que vem à rede é peixe. Entrega-o nas mãos do Nunes.

Este parte ligeiro com a sua querida “chave do Aleluia”. Nem olha para o que leva: a sua missão é só levar. Não se discute o objecto. Desce em segundos a imensa escadaria de pedra com o objecto bem seguro na mão direita e apoiado no ombro branco do “roquete”. “É uma chave bem pesada – vai pensando.” Já entra na Sé todo ufano. Os olhos pasmados de todos os fiéis estão colocados sobre ele. Sobre ele não, sobre o objecto que ele transporta: um pedaço de ferro bem longo e bem ferrugento que se usa atravessado nas camas de ferro para suportar o colchão. Era nem mais nem menos do que uma dessas travessas de ferro das camas que ele agarrava sofregamente na sua mão direita e apoiava no ombro. Eis a bendita chave! Cá vai ela! Cá vai ela! Deixem-me passar! Deixem-me passar!

Na coxia central da Sé o atleta já vislumbra a meta lá ao fundo, junto ao altar-mor. Um pouco mais e cortará a meta em beleza e em glória com o aplauso unânime de todos

Aligeira o passo, apesar do peso, porque está mesmo em cima da hora de abrir o “Aleluia”. Ei-lo que desemboca sorridente no espaço sonolento reservado aos senhores cónegos. Um deles, o sr. Cónego Eurico olha, estupefacto, e deixa escapar um sorriso cúmplice. Com a meta à vista já não há ninguém que pare o vencedor. O último obstáculo está a ser ultrapassado. Respeitosamente, com o ferro ao ombro, ajoelha ao passar em frente do trono com dossel do Sr. Arcebispo que imagina estar já, alta madrugada, com algum sonho invulgar e requintado.

Por detrás do altar-mor ninguém consegue conter o riso. Até o próprio mestre cerimónias, alertado para a situação, perde a compostura. Do lado do coro alto da Sé por momentos perderam-se os acordes e as vozes melodiosas dos tenores, dos baixos e dos barítonos. Ecoa por aquela vastidão imensa uma imensa ovação ao vencedor.

O Nunes, esbaforido mas triunfante, deposita o maravilhoso troféu nas mãos de quem lho tinha pedido.

publicado por beatonuno às 16:18
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