Segunda-feira, 3 de Abril de 2006

A CHAVE DO ALELUIA

 

A história corria de boca em boca, mas já se escoara na memória dos tempos o quando, o onde, o como, o quem. Tal como nos mitos, o episódio já se tinha transformado numa gesta de tempos passados, irreais e fabulosos, incapaz de renascer e retomar um corpo são e robusto.

Naquela noite de Sábado Pascal a Sé de Coimbra estava repleta de fiéis, de seminaristas, de cónegos para participarem nas cerimónias pascais: a bênção do lume novo, a bênção da água, toda a liturgia que ia culminar no radioso canto do “Glória” acompanhado pelo repicar dos sinos, pelo toque de quantas campainhas o Sr. Américo sacristão conseguira granjear ao longo da semana mais longa.

 

 

     Sé Nova - Coimbra

 

A toda esta ilustre assembleia presidia, na sua cátedra com baldaquino, o Sr. Arcebispo, Bispo de Coimbra.

A celebração pascal que se alongava por horas e horas, decorria com toda a solenidade, com a maior devoção e recolhimento, ouvindo-se apenas as vozes jubilosas do orfeão, estrategicamente colocado no coro alto da Sé, vozes que se dispersavam pela imensidão da abóbada da Catedral.

A noite já ia quase a meio. Aproximava-se a hora precisa e exacta. O “Aleluia” estava prestes a ser aberto. Mas não aparecia a bendita “Chave do Aleluia”! Por mais voltas que se dessem, por mais vezes que as mãos rebuscassem os fundos dos bolsos das calças e das batinas, não se encontrava a bendita chave. O tempo urgia e já a ansiedade e a vergonha tomavam conta do espírito do mestre cerimónias. O grupo dos “roquetes” andava numa roda-viva, vasculhando atrás do altar-mor, em cima e por baixo da credência, em torno do trono episcopal, mas… tudo em vão. O desespero e a angústia ia-se apoderando de todos. Até um ou outro Sr. Cónego mais desperto se ia apercebendo do trágico da situação. Era quase meia-noite e o “Aleluia” por abrir!

Nestas circunstâncias extremas não se pode olhar a meios par alcançar o objectivo final: encontrar a “Chave do Aleluia”.

O Luís Carlos chama discretamente um dos “roquetes”, o Nunes, e pede-lhe que se dirija rapidamente ao coro da Sé e peça ao Borges, um dos membros do orfeão, a bendita chave. Os olhos do Nunes brilham na noite porque se sente o escolhido, o eleito para o desempenho de tão nobre e secreta missão. Não perde um momento. Parece que leva asas nos pés. Percorre a coxia central do templo e voa para a porta que dá acesso à sacristia e ao amplo corredor de pedra. A sua cabeça não pára de ser metralhada pela mesma ideia: “É quase meia-noite e o “Aleluia” por abrir!”. Já no amplo corredor de pedra corre, célere voa. A vasta escadaria de pedra galga-a em segundos, acicatado por aquela ideia angustiante que lhe continua a martelar o espírito.

Sem saber bem como, já está no coro da Sé. Dirige-se ao Borges: “O Luís Carlos pede a chave do “Aleluia”. È quase meia-noite e o “Aleluia” está por abrir.”

Ora manda a verdade que se diga que o “servicinho” não tinha sido previamente combinado. Mas uma verdadeira reminiscência fez chispar a ideia no espírito do Borges. Sem mais aquelas, sai ligeiro do coro e dirige-se para as dependências anexas da Sé que eram ocupadas pelo Sr. Américo sacristão. A escuridão da noite era apenas avivada pelo clarão da iluminação pública que escorria das janelas. Aquele compartimento estava há muito desocupado e apenas servia para guardar trastes velhos. Naquele lusco-fusco o Borges lança a mão e sente um objecto frio, pesado e longo. Mas não há tempo a perder, o que vem à rede é peixe. Entrega-o nas mãos do Nunes.

Este parte ligeiro com a sua querida “chave do Aleluia”. Nem olha para o que leva: a sua missão é só levar. Não se discute o objecto. Desce em segundos a imensa escadaria de pedra com o objecto bem seguro na mão direita e apoiado no ombro branco do “roquete”. “É uma chave bem pesada – vai pensando.” Já entra na Sé todo ufano. Os olhos pasmados de todos os fiéis estão colocados sobre ele. Sobre ele não, sobre o objecto que ele transporta: um pedaço de ferro bem longo e bem ferrugento que se usa atravessado nas camas de ferro para suportar o colchão. Era nem mais nem menos do que uma dessas travessas de ferro das camas que ele agarrava sofregamente na sua mão direita e apoiava no ombro. Eis a bendita chave! Cá vai ela! Cá vai ela! Deixem-me passar! Deixem-me passar!

Na coxia central da Sé o atleta já vislumbra a meta lá ao fundo, junto ao altar-mor. Um pouco mais e cortará a meta em beleza e em glória com o aplauso unânime de todos

Aligeira o passo, apesar do peso, porque está mesmo em cima da hora de abrir o “Aleluia”. Ei-lo que desemboca sorridente no espaço sonolento reservado aos senhores cónegos. Um deles, o sr. Cónego Eurico olha, estupefacto, e deixa escapar um sorriso cúmplice. Com a meta à vista já não há ninguém que pare o vencedor. O último obstáculo está a ser ultrapassado. Respeitosamente, com o ferro ao ombro, ajoelha ao passar em frente do trono com dossel do Sr. Arcebispo que imagina estar já, alta madrugada, com algum sonho invulgar e requintado.

Por detrás do altar-mor ninguém consegue conter o riso. Até o próprio mestre cerimónias, alertado para a situação, perde a compostura. Do lado do coro alto da Sé por momentos perderam-se os acordes e as vozes melodiosas dos tenores, dos baixos e dos barítonos. Ecoa por aquela vastidão imensa uma imensa ovação ao vencedor.

O Nunes, esbaforido mas triunfante, deposita o maravilhoso troféu nas mãos de quem lho tinha pedido.

publicado por beatonuno às 16:18
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3 comentários:
De lamire a 4 de Abril de 2006 às 01:48
Ora estou vendo que o nosso caro amigo está já entrelaçado com estas novas tecnologias. É tudo uma questão de chave. ALELUIA!!!
De ad a 6 de Abril de 2006 às 15:53
Grande texto.
Quem escreve assim não é gago.
De mjadomingues a 12 de Abril de 2010 às 09:38
Belo conto! Parabéns! Excelente transposição da história da caça aos gambozinos. A criação dos ambientes está perfeita. E o movimento das personagens e a expectativa a cortar a sonolência funcionam na perfeição.

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