Terça-feira, 9 de Junho de 2009

EM POMBAL NADA FAZ MAL - Parte II

 

O autocarro da Câmara Municipal de Pombal já tinha o motor ligado, mas ninguém tinha pressa em sair da mesa onde um excelente convívio e uma amena cavaqueira prendia os comensais já de papo cheio.
No entanto havia compromissos assumidos pela organização. É que a vertente cultural, o conhecimento de aspectos característicos e específicos dos lugares dos encontros é uma constante que se mantém desde a primeira hora, desde que os pioneiros de Soure, ousando vencer o afastamento, a dispersão e até uma certa inércia, tomaram, em boa hora, a iniciativa de arrancar com estes encontros de antigos alunos. Basta ouvir falar o Zé Carlos Guardado ou algum dos seus “muchachos”.
A empresa RENOESTE, uma unidade de processamento de sal, esperava-nos, impaciente, pela tardança dos convidados. Uns no autocarro, outros em carro próprio ou dos amigos lá começaram a chegar ao Carriço (segundo os entendidos, o nome Carriço derivará do nome de uma planta que abunda naqueles areais, o carriço da areia, Carex Arenaria).
Lá nos aguardava uma simpática guia, tão versada nos assuntos relacionados com a estrutura e funcionamento da RENOESTE e dotada de tais dons que impediam qualquer aluno de estar desatento. Não fora uma ardente sede que de quando em vez encaminhava os presentes para o bebedouro da empresa, a verdade é que ninguém arredava o pé, nem o ouvido e muito menos o olhar de tão atraente mestra. Um primor de exposição! Não sabem o que perderam os faltosos!
Mas vamos lá á bendita central de “Cogeração”. Esta central produz conjuntamente calor e electricidade, a partir da queima do gás natural. A electricidade serve para alimentar a fábrica de sal da RENOESTE. O calor produzido na central de cogeração, sob a forma de água quente, é enviado para a fábrica de sal, onde será utilizado para o aquecimento da salmoura depositada dentro das salinas, aqueles enormes tanques que observámos. O sal aqui produzido é utilizado na produção de cloro numa fábrica de Estarreja.
E as vantagens são muitas: os custos de produção de sal são reduzidos, do ponto de vista energético e económico; tem uma grande importância do ponto de vista ambiental porque sem a existência da cogeração seria preciso ocupar uma área muito grande de terrenos com salinas. Isto seria bastante prejudicial porque a área de concessão da RENOESTE está inserida numa zona de Reserva Ecológica Nacional, que seria potencialmente afectada. Por sua vez, as cavernas de onde foi extraída a salmoura, são utilizadas para a armazenagem do gás natural da TRANSGÁS. (- Será que tomei as notas certas no caderno de casa?)
Basta! Vamos à Sardinhada que nos aguarda no Restaurante Panorâmico! Confesso que uma sardinhada no final do dia pode ser um pouco indigesta, mas «em Pombal nada faz mal».
Alguns já tinham partido para os seus destinos, mas um bom grupo mantinha-se ali naquele fim de tarde quente, perpassado por uma amena brisa de Maio. O declinar do dia é mais propício ao retorno ao lar, ao avivar de memórias comuns, à confidência, ao desabafo, ao contador de histórias. E por isso surgiam aqui e ali, sentados ao redor de umas mesas, pequenos grupos afectivamente mais ligados por anos e anos de um convívio gerador de cumplicidades. Por contraste, via-se também um ou outro isolado, tão cheio de si ou talvez com problemas da infância ou da adolescência mal resolvidos e que, por isso, não conseguia partilhar daquele ambiente tão agradável e tão familiar.
Para o ano há mais, se Deus quiser. Não há bem que sempre dure...
publicado por beatonuno às 17:49
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Quarta-feira, 3 de Junho de 2009

EM POMBAL NADA FAZ MAL - Parte I

 

Chegou finalmente o dia 30 de Maio de 2009!
De longe e de perto, dos quatro pontos cardeais, Antigos Alunos do SIC e acompanhantes dirigiram-se, logo pela manhã, para o maravilhoso espaço do Restaurante Panorâmico, ali bem no alto, sobranceiro à cidade de Pombal. Não consta que alguém se tivesse perdido. Como os bíblicos Reis Magos guiados por uma Estrela – o eficiente GPS de então ( a Bíblia tem tudo! ) – também nós, guiados por uma mesma estrela, por um mesmo ideal, lá fomos conduzidos para a Senhora de Belém.
A Senhora lá estava e nós ali reencontrámos os meninos que nos relembraram o menino que fomos há vinte, trinta, quarenta, cinquenta anos…
Já ali se encontravam os “ pastores” que ao longo de cansados meses nos prepararam gostosamente este reencontro: o imparável A. Simões, o incansável J. Roque, o Ilídio. Cá em baixo, já na cidade, o Armindo Carolino aguardava-nos na Câmara Municipal a que já presidiu durante “onze anos e um dia”.
Cumprido o acto oficial, esperava-nos a Missa na Capela da Senhora de Belém. O velho ditado popular “O homem põe e Deus dispõe” veio permitir que o Fernando Neves e o A. Simões tivessem tempo de sobra para ensaiar os cânticos litúrgicos. Afirmo e confirmo que ficaram bem ensaiados, com trinados e tudo. Lá apareceu apressado e sorridente o P. Jorge Santos, um dos últimos frutos sacerdotais que a Figueira produziu.
Só que o tempo ia desaparecendo e a fome crescendo. Quando ele recitou o último “Oremos”, ouviu-se um certo grupinho, já à saída do templo, responder: “Barriga cheia é o que nós queremos”.
Ataquemos então o repasto que são horas. Uma “sopa à lavrador” para forrar o estômago, de modo a poder receber o “rodízio à brasileira” com a respectiva guarnição. Abundante e suculento. Tudo bem regado com vinho tinto da casa, vinho verde branco de pressão, águas, sumos e cervejas. Para terminar o café (sem bagaço). Ali, à volta da mesa se reencontraram os “meninos” com os seus colegas e, para dar um cheirinho doutras épocas, alguns prefeitos e professores a salpicar o ambiente. Como cereja em cima de um bolo de natas, surge a magnífica ideia da Comissão Organizadora: a entrega de magníficos e ornamentados diplomas de presença neste XVIII ENCONTRO.
Quantas palavras, quantas vivências, quantos olhares cúmplices se cruzaram naquele encantador espaço! Estou a vê-los: Higino Valente de 38, João Amado de 44, Gabriel Duarte de 45, Armindo Carolino de 52, Luís Carlos de 53, Ângelo de 55, José Luís de 56, os de 57. A lista é demasiado extensa: cento e trinta e tal participantes. Não dá para reproduzir aqui a totalidade dos nomes dos presentes. Isso foi obra do A. Simões e do J. Roque. Deus lhes dê muita vida e saúde para organizarem outros encontros. Pela minha parte vinte valores e não se fala mais nisso.
Foi também uma ocasião de encontrar alguns “forenses” habituais: o Zé Vieira, o Zé Carlos, o Arnaldo Rodrigues, o Manuel Dias, o Paulino Martins e de conhecer pessoalmente o Fernando Sequeira. Não se podem perder estas oportunidades!

 

 

 

 

publicado por beatonuno às 16:07
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Sábado, 25 de Abril de 2009

HERÓI E SANTO

Nuno de Santa Maria torna-se este Domingo, 26 de Abril, o primeiro português a ser canonizado desde que Paulo VI, a 3 de Outubro de 1976, declarou Santa a religiosa Beatriz da Silva.

 

A cerimónia é presidida por Bento XVI, que assim apresenta a figura do Condestável como digna de veneração em todo o mundo. Os peregrinos que se irão reunir na Praça de São Pedro têm ao seu dispor um livro, para acompanhar a celebração, com a biografia de D. Nuno Álvares Pereira em português, italiano e inglês.

 

Antes das 10h00 (hora local, menos uma em Lisboa), já os presentes no local são convidados a preparar a cerimónia de canonização, escutando alguns pensamentos dos cinco novos santos: o Condestável e os beatos italianos Arcangelo Tadini, Bernardo Tolomei, Gertrude (Caterina) Comensoli e Caterina Volpicelli. Do novo Santo português destaca-se o espírito contemplativo, a pobreza, a humildade e a caridade, a devoção à Eucaristia e a Nossa Senhora, citando-se Bento XV, que o beatificou em 1918.

 

A celebração eucarística inicia-se com a procissão rumo ao altar, onde celebrarão Bento XVI e 50 concelebrantes. Após o acto penitencial, inicia-se o rito da canonização, em Latim. O prefeito da Congregação para as Causas dos Santos, D. Angelo Amato, acompanhado pelos postuladores das causas, pede que os cinco beatos sejam inscrtidos no “álbum dos Santos” e “como tal sejam invocados por todos os cristãos”.

 

Nesta altura, é apresentada uma breve biografia dos novos Santos e é cantada a Ladainha.

 

Bento XVI profere, em seguida, a Fórmula de canonização:

“Em honra da Santíssima Trindade, para exaltação da fé católica e incremento da vida cristã, com a autoridade de nosso Senhor Jesus Cristo, dos Santos Apóstolos Pedro e Paulo e a Nossa, após ter longamente reflectido, invocado várias vezes o auxílio divino e escutado o parecer dos nossos irmãos no Episcopado, declaramos e definimos como Santos os Beatos Arcangelo Tadini, Bernardo Tolomei, Nuno de Santa Maria Álvares Pereira, Geltrude Comensoli e Caterina Volpicelli, e inscrevemo-los no Álbum dos Santos e estabelecemos que em toda a Igreja eles sejam devotamente honrados entre os Santos”.

 

Lida a fórmula, são colocadas junto ao altar as relíquias dos novos Santos e a assembleia repete “Aleluia”. O Arcebispo Amato e os postuladores agradecem então ao Papa.

 

O prefeito da Congregação para as Causas dos Santos pede que seja redigida a Carta Apostólica a respeito das canonizações que acabaram de ter lugar. Bento XVI responde “Decernimus”, ou seja, “ordenamo-lo”.

 

A primeira leitura da Missa será proclamada em português. O Evangelho, por seu turno, em Latim e grego. Após o Credo inicia-se a Liturgia Eucarística, que segue os momentos habituais de todas as Missas dominicais.

 

Após os ritos de conclusão, o Papa dirige uma pequena saudação e segue-se a recitação do Regina Caeli, a oração mariana do tempo de Páscoa.

Segundo informação da Agência Ecclesia

publicado por beatonuno às 16:29
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Sábado, 21 de Fevereiro de 2009

BEATO NUNO PROMOVIDO A SANTO

Nuno de Santa Maria Álvares Pereira será canonizado no próximo dia 26 de Abril, segundo anunciou este sábado o Vaticano.

Nascido em 1360, D. Nuno Álvares Pereira foi militar e conduziu as tropas na Batalha de Aljubarrota, que ditou a derrota definitiva dos castelhanos. Um dos homens mais ricos do seu tempo, abandonou a riqueza e as honrarias deste mundo e tornou-se carmelita, ingressando no Convento do Carmo em Lisboa. Beato Nuno de Santa Maria faleceu em 1431 e foi beatificado em 1918. Será declarado Santo a 26 de Abril de 2009.

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Sexta-feira, 11 de Julho de 2008

JÁ NÃO É SEM TEMPO

 

O Papa já deu o seu aval à publicação do decreto que reconhece um milagre atribuído ao futuro Santo português Beato Nuno Álvares Pereira e a suas virtudes heróicas.

O Beato Nuno de Santa Maria (1360-1431) foi beatificado em 1918 pelo papa Bento XV, e nos últimos anos, a Ordem do Carmo (onde ingressou em 1422), em conjunto com o Patriarcado de Lisboa, decidiram retomar a defesa da causa da canonização. A sua memória litúrgica celebra-se, actualmente, no dia 6 de Novembro.
A cura milagrosa reconhecida pelo Vaticano foi relatada por Guilhermina de Jesus, uma sexagenária natural de Vila Franca de Xira, que sofreu lesões no olho esquerdo por ter sido atingida com salpicos de óleo a ferver quando estava a fritar peixe.
A cura de Guilhermina de Jesus, depois de ter pedido a intervenção do Santo Condestável, foi observada por diversos médicos em Portugal e foi analisada por uma equipa de cinco médicos e teólogos em Roma, que a consideraram inexplicável e, por isso, miraculosa.
 
Informação d´O AMIGO DO POVO

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Quinta-feira, 3 de Julho de 2008

Dos Calhaus da Diocese Bracarense à Mina Braguesa

 

Quem, com a devida emoção, respeito e veneração, iniciar uma romagem aos diversos santuários da Antiguidade Bracarense, instalados no Museu D. Diogo de Sousa, depara-se, no piso da entrada, com um amplo corredor ao longo do qual se pode ir apreciando uma breve abordagem à história do Museu e onde avultam, como colunas dum pórtico sagrado, dois dos precursores da arqueologia bracarense: as figuras do Dr. Pereira Caldas e de Albano Belino.
José Joaquim da Silva Pereira Caldas era natural das Caldas de Vizela, onde nasceu a 26 de Janeiro de 1818. Tendo feito os estudos secundários em Guimarães, matriculou-se depois na Universidade de Coimbra onde concluiu os estudos superiores.
Depois de uma breve passagem pelo Liceu Nacional de Leiria, o Dr. Pereira Caldas, fez toda a sua carreira docente no Liceu Nacional de Braga, desde Novembro de 1846, como professor proprietário e vitalício na área da Matemática.
Foi nesta cidade que desenvolveu, a par da sua carreira docente, toda uma actividade de intervenção política, cultural e cívica nos mais diversos sectores da sociedade portuguesa e, sobretudo, da sociedade bracarense, desde a sua participação nas lutas liberais até à publicação de numerosíssimos artigos em jornais e revistas da época e de múltiplos opúsculos.
 Embora nascido nas Caldas de Vizela o Dr. Pereira Caldas considerava-se filho adoptivo da cidade de Braga. E de facto esta cidade acolheu-o e, após a sua morte ocorrida em 1903, determinou, em sessão camarária, atribuir a uma artéria da urbe o nome do Dr. Pereira Caldas para que ficasse na memória dos bracarenses a figura deste “sábio professor, bibliófilo notável, democrata ardente[1].
Foi, de facto, um bibliófilo notável. O Dr. Pereira Caldas possuía uma riquíssima biblioteca particular onde abundavam excelentes obras de peritos nacionais e estrangeiros relacionadas com a Arqueologia e a Epigrafia.
 
“Albano Ribeiro Belino nasceu no dia 18 de Dezembro de 1863 em Gouveia. Chegou a Guimarães em Julho de 1876, para se iniciar no ofício de marçano na tabacaria de José Joaquim de Lemos.
Desde cedo começou a fazer-se notar pela sua inteligência e espírito de iniciativa.
Reconhecendo as qualidades do rapaz, um dos clientes habituais da Tabacaria Lemos, o cónego António Joaquim de Oliveira Cardoso, poeta e dramaturgo, iniciou-o nas artes da escrita.
No final de Abril de 1881, casou com Delfina Rosa, sobrinha do Cónego António de Oliveira Cardoso, cuja casa frequentava. O matrimónio, com uma mulher que já ultrapassara os 43 anos, trouxe-lhe a fortuna e levou-o a instalar-se em Braga. Será aí que, inspirado na obra e no exemplo de Martins Sarmento, dará início às suas prospecções arqueológicas e se tornará uma figura incontornável da arqueologia portuguesa da viragem do século XIX para o século XX.
A morte levou-o cedo. No final de Novembro de 1905 foi acometido por um ataque apopléctico, de que resultaram graves sequelas, incluindo a paralisia parcial do ladodireito. Não recuperaria deste acidente, vindo a falecer no dia 2 de Dezembro do anoseguinte, sem ter completado os 43 anos de idade.
Partiu sem ver concretizado o sonho que alimentara muitos anos: a abertura de um Museu Arqueológico em Braga, onde projectara depositar os objectos que coleccionou ao longo de mais de uma década. E partiu com uma forte amargura em relação à cidade onde se fez arqueólogo, devido à atitude de desprezo em relação à memória material do passado, então dominante em Braga.
Logo após o falecimento de Albano Belino, a sua viúva deu conta ao Presidente da Sociedade Martins Sarmento de que era vontade do seu marido, e sua, que o museu arqueológico que possuía em Braga, e que continuava alojado provisoriamente em condições precárias no Paço Arquiepiscopal, passasse a fazer parte do Museu Arqueológico da Sociedade Martins Sarmento, doando a esta Instituição de Guimarães os objectos que compunham o respectivo espólio.”[2]
 
Albano Belino ao instalar-se em Braga, após o seu casamento, encontrou no Dr. Pereira Caldas um apoio seguro no que respeita aos estudos científicos referentes à Arqueologia e Epigrafia. Como Albano Belino não possuía qualquer diploma escolar, era um autodidacta, a “opulenta livraria” do Dr. Pereira Caldas, colocada à sua disposição, foi-lhe de extrema utilidade. Com a data de 2 de Fevereiro de 1895, Albano Belino escreve, numa espécie de prefácio ao seu livro[3] de inscrições romanas de Braga, o seguinte: Convencidos, porém, do quanto pode a vontade e o esforço, procurámos superar essas dificuldades, que fariam recuar talvez outros como nós ainda noveis no assunto: e prosseguimos animado por dois respeitabilíssimos amigos nossos, o sr. Dr. Martins Sarmento, de Guimarães, (que muito nos instigara a estas investigações), e o sr. Dr. Pereira Caldas, de Braga, que generosamente nos confiara da sua opulenta livraria os melhores trabalhos de epigrafia romana.
Deste sábio professor-decano do Liceu desta cidade, temos em nosso poder a seguinte carta, de que fizera acompanhar a primeira remessa de livros do nosso pedido:
«Não abandone os estudos epigráficos encetados, e de que me diz ter dado noticia ao Dr. Martins Sarmento, de Guimarães, que é uma biblioteca viva em assuntos arqueológicos, em todos os ramos amplíssimos desse vastíssimo tronco.
Exigem esses estudos muita paciência e muitos subsídios, para o estudioso da espécie não ser arqueólogo de nome, e falsificador de facto, como o fora o enfatuado Machado do século seiscentista — Gaspar Álvares de Lousada Machado — deixando esse apelido em execrando renome.
Tem sempre achado em mim o Albano Bellino a máxima franqueza, em pôr à sua disposição os meus livros, e os meus conselhos.
Não é isto favor especial: é procedimento meu para com todos os estudiosos e filho da educação da juventude, graças á ilustração de meu nunca olvidado pai (…).
Sabe por experiência o Albano Bellino, como por muitos estudiosos do país, e não poucos de fora dele, é de contínuo, frequentada a minha livraria, onde eles acham subsídios literários, que por vezes não encontram em nenhumas outras.
Conte por isso plenamente, agora e sempre, com a permissão do manuseamento dos meus livros, onde achará anotações minhas em quase todos os de mais uso.
Aproveite-se de tudo à vontade, para nunca o poderem alcunhar de COPISTA FALSIFICADOR, como fora esse Machado seiscentista - arquivista literário da Sé Primacial — mais rebaixado afinal no estádio que o limo das águas estagnadas, e a podridão da vasa das marés.
Compulse o Albano Bellino os indículos indispensáveis ao arqueólogo novel, para luminosa iniciação, e regrada direcção, no espinhoso assunto da EPIGRAFIA ROMANA.
Lembrar-lhe-ei por exemplo — e para exemplo apenas — alguns especimens no caso.
Darei o primeiro lugar ao venerando ancião lisbonense, o indefesso consócio arqueólogo Joaquim Possidónio Narciso da Silva, com as suas Noções Elementares de Arqueologia, ilustradas com numerosas gravuras.
E darei o segundo lugar, como elucidação amplíssima a essas Noções Elementares, à Introduction á l’étude de l’archeólogie de Millin, sem esquecer concomitantemente o Resumé complet d’archeólogie de Champollion Figeac.
Não ajunte a estes preliminares o Albano Bellino — no alvo de não sobrecarregar-se demais em seus inícios profícuos — senão o Cours d’épigraphie latine de Cagnat, e o Dictionnaire des antiquités romaines et grecques de Rich, todo repleto de numerosíssimas gravuras — ou ainda o trabalho análogo de Daremberg & Saglio.
E quando muito, meu Albano Bellino, auxilie-se ainda dos Elements d’archeólogie nationale de Batissier, onde achará uma curiosa bibliografia extensa, facilitadora de fontes e recursos nos multíplices ramos do grande tronco arqueológico.
Em relação ao Reverendo Teatino D. Jerónimo Contador d’Argote — de que não pode o Albano Bellino prescindir no seu estudo de EPIGRAPHIA ROMANA em relação a Braga — duas indicações me cumpre fazer-lhe desde já, no alvo de não emaranhar-se improficuamente nos volumosos escritos do indefesso religioso.
E’ minha indicação primeira — o não servir-se nunca do Reverendo Teatino, a não ser apenas como ÍNDICE LOCALISATIVO das inscrições que ele transcreve, confiado demais na fé de copistas ignorantes — senão talvez de copistas falsários — imitadores embusteiros do arquivista primacial MACHADO, a quem terá o mundo literário como desdouro dos filhos da capital do Minho, dedicados com fervor á indagação escrupulosa da verdade histórica, mediante o auxilio de testemunhos que a documentam.
E de só para esse ÍNDICE LOCALISATIVO nos pode servir o Reverendo Teatino, já eu indicara isso na minha CARTA EPIGRÁFICA ao indefesso autor do Portugal Antigo e Moderno — Augusto Soares de Azevedo Barbosa de Pinho Leal.
E aí roborara eu inconcussamente essa minha indicação, em palavras endereçadas então ao falecido Pinho Leal, e agora igualmente aplicáveis ao Albano Bellino:
Abra o meu amigo as Notícias Arqueológicas de Portugal, escritas em alemão pelo Dr. Emílio Hübner; e vertidas em português pelo nosso finado confrade Augusto Soromenho, por ordem da Academia Real das Ciências de Lisboa: — e achará na página 4 a confirmação do meu aludido asserto, nestas palavras do sábio arqueólogo de Berlim:
«Argote, preocupado com a ideia de encher os seus in-folios, reproduziu quase na íntegra asmemórias que lhe vieram às mãos, sem lhes adicionar cousa alguma essencial; mas também sem lhes fugir aos erros no texto das inscrições e na designação dos lugares».
E visa a minha indicação segunda — a que somente manuseie o Reverendo Teatino em conformidade com a coordenação dos seus grossos volumes, que já em vida do indefesso autor — pelo desordenado do contexto respectivo — eram apelidados pela crítica zombeteira a História dos Calhaus da Diocese Bracarense. (…)
Não dê ouvidos o Albano Bellino à crítica invejosa — oriunda sempre dos ignorantes enfatuados — com presunção de sábios insubstituíveis (…).
Só por esse modo podem eles singularizar-se no estádio literário, onde intentam ousadamente associar-se aos cultores das letras que os repelem, por não poder ser estábulo esse estádio, nem poder idear-se para esses intrujões uma associação, com abstracção prática da conjunção copulativa argola.
O Albano Bellino conhece-os de sobra, a fim de arredar-se deles para longe, cônscio do que é e do que vale, e do nada que são esses histriões da crítica insolente, petulante, e colareja. (…)
E agora, meu Albano Bellino, finalizo com o mesmo exórdio desta minha missiva:
«Não abandone os estudos epigráficos encetados».
 
Lembre-se dos dois versos de CAMÕES nos Lusíadas — Canto I. Est. XL:
«Não tornes para traz; pois é fraqueza
Desistir-se da cousa começada».
 
E lembre-se ainda doutros dois mais do nosso HOMERO PÁTRIO — Canto X. Est. CXLV:
«O favor, com que mais se acende o engenho,
Não o dá a pátria — não».[4]
 
Neste contexto e considerando a referida data de 2 de Fevereiro de 1895, será interessante reler e confrontar o conteúdo desta carta com alguns excertos da correspondência[5] trocada entre o Dr. Martins Sarmento e Albano Belino, no período imediatamente anterior e posterior a esta data.
Embora os estudos arqueológicos já viessem a ser empreendidos entre nós desde o século XVI – lembremos André de Resende que criou em Évora o primeiro museu de inscrições romanas e D. Jerónimo Contador de Argote que na região de Braga recolheu vários materiais e publicou alguns tomos sob a epígrafe “Memórias do Arcebispado de Braga” – a verdade é que é sobretudo no século XIX que assistimos a um surto da busca do nosso passado peninsular com o surgimento de figuras que, agora eivadas do espírito positivista e científico reinante, se dedicaram à investigação dos relíquias das civilizações que nos precederam. Surge uma vasta plêiade de nomes que se tornaram célebres no campo da Arqueologia e da Epigrafia: Possidónio Narciso da Silva, Martins Sarmento, José Leite de Vasconcelos, Albano Bellino, Santos Rocha e muitos outros. Uma febre louca tomou estes homens na busca do nosso passado de milénios de cultura e de civilização. Era uma verdadeira loucura semelhante à daqueles que noutras paragens buscavam o ouro escondido. Foi neste contexto que Martins Sarmento, referindo-se à profusão de sucessivos e quiçá inesperados achados arqueológicos em Braga e arredores, utilizou a expressão “mina braguesa”.[6] A notícia de qualquer achado arqueológico era religiosamente guardada e o secretismo mantido como se de um segredo de seita ou de sociedade secreta se tratasse, até que qualquer revista, jornal ou livro a publicasse já devidamente estudada. Nos próprios títulos das obras publicadas, nos prólogos ou prefácios, havia a preocupação de indicar de que se tratava de inscrições “ainda inéditas,” e, para que não surgisse qualquer equívoco, acrescentava-se, de forma pleonástica, “por isso dadas hoje a lume pela primeira vez”.[7]
É no mínimo curioso ler o que se diz e escreve no foro público e no foro privado. Na carta atrás transcrita - que foi tornada pública com a publicação do livro - e nos excertos da correspondência privada entre Martins Sarmento e Belino estão patentes diferentes padrões de comportamento e de relacionamento entre Martins Sarmento e Belino e entre estes e Pereira Caldas.
Vejamos então alguns Extractos da Correspondência trocada entre o Dr. Martins Sarmento e Albano Belino.[8]
 
Um grande achado!
Nada menos de 5 inscrições inéditas, pois foram encontradas junto à antiga muralha da cidade, há menos de 15 anos, segundo os informes dum lavrador. Que pena que a “Revista” saia só lá para Abril! Receio que alguém as encontre e publique primeiro do que nós; mas pode ser que tal não aconteça.
(Albano Belino - Braga, 5 de Janeiro de 1895)
 
Corre perigo a virgindade das inscrições que julgámos inéditas. […]
É que, desde o dia em que lhe [Pereira Caldas] revelei o caso parece que alguém me diz que ele se preparava para me substituir na “Revista”. […]
V. Exa. compreende que no caso de ele me participar o que tenciona fazer, não me convém contrariá-lo, e por isso vamos a salvar ao menos as que julgámos inéditas. Para isso é necessário que V. Exa. me diga daí:
É possível que o homem, à vista desta carta, desista do que se me afigura, e nesse caso eu mostrava-me antes favorável a que todas principiassem a ser publicadas na Revista. Se ele resistir, então será bom aproveitarmos as inéditas já que isso nos deu trabalho.
V. Exa. concorda?
Para disfarçar convinha que o princípio da carta se referisse ao exame do Ídolo ou outra coisa qualquer.
(Albano Belino - Braga, 9 de Fevereiro de 1895)
 
Não esteja com tanta cerimónia com o Pereira Caldas; diga-lhe a verdade, que é o melhor modo de o desarmar; diga-lhe que já me deu as inscrições para a “Revista”, mas que eu disse logo que haviam de ser publicadas com o nome do seu descobridor. Fique certo que o Caldas não se virá atravessar diante de nós; e, se viesse, não ficaria em bons lençóis. Eu, no seu lugar, não punha mesmo dúvida nenhuma em lhe mostrar a cópia das inscrições inéditas, dizendo-lhe o que há, e prevenindo-o logo de que cometia esta inconfidência por ele ser sócio honorário da corporação que publica a “Revista”, pela sua respeitabilidade, etc. […]
Mando-lhe a resposta do Hübner e por ela verá como lá por fora apreciam o que neste país de bananas apenas faz rir.
(F. Martins Sarmento – Guimarães, 12 de Fevereiro de 1895)
 
O alvitre de as publicar em folheto é magnífico, embora fiquem em segredo até sair a “Revista”.
Mas isso mesmo convém não demorar.
Se depois de as minhas saírem na Revista, o P. C. quiser escrever sobre o mesmo assunto, será bom não lhe impedir isso.
(Albano Belino - Braga, 14 de Fevereiro de 1895)
 
Veremos o que faz ou quer fazer o P. Caldas. As inscrições inéditas é que ele não publica na “Revista”, e não creio que vá procurar outro periódico.
(F. Martins Sarmento – Guimarães, 14 de Fevereiro de 1895)
 
Por vezes a situação atingia tais contornos que se aconselhava o novel arqueólogo a tomar atitudes drásticas:
Nem pense em destruir o calhau. Seria quase um sacrilégio. Em caso de perigo, bastará enterrá-‑lo, e dizer fleumaticamente que não sabe dele, ou que o deu.
(F. Martins Sarmento – Guimarães, 16 de Fevereiro de 1897)
 
Pela leitura da carta publicada constata-se que Albano Belino nutria uma certa reverência e grata veneração por aqueles que ele considerava seus “respeitabilíssimos amigos”: o Dr. Martins Sarmento e o Dr. Pereira Caldas. Um porque o instigou à investigação arqueológica, o outro porque lhe pôs à disposição o manancial da sua rica biblioteca e as suas avisadas orientações bibliográficas e sábios conselhos. “Não dê ouvidos o Albano Bellino à crítica invejosa — oriunda sempre dos ignorantes enfatuados — com presunção de sábios insubstituíveis” e ainda “O Albano Bellino conhece-os de sobra, a fim de arredar-se deles para longe, cônscio do que é e do que vale, e do nada que são esses histriões da crítica insolente, petulante, e colareja.”[9]
Por outro lado, a admiração do Dr. Pereira Caldas pelo Dr. Martins Sarmento também se revela excelente “ (…) Dr. Martins Sarmento, de Guimarães, que é uma biblioteca viva em assuntos arqueológicos, em todos os ramos amplíssimos desse vastíssimo tronco.”[10]

No entanto algo de diferente encontramos ao ler a correspondência privada. Parece que nesta corrida ao ouro arqueológico, cada um dos concorrentes se esforça por ser ele a cortar a meta em primeiro lugar e, consequentemente, a receber a coroa de louros, ainda que, se necessário, seja obrigado a “enterrar o calhau”. E, pelo que lemos, havia outros concorrentes de fora que contribuíam mais ainda para complicar a contenda:
“Recebi o n.º da “Pátria”. Vê-se que o Machado anda com pouca sorte, mas o resultado que tiram os espadachins dos seus ataques a torto e a direito não pode ser outro. Também não gostei da vaia jogada ao Caldas pelo J. Leite, mas aí está outro espadachim, que também a cada passo encontra o pago das suas pimponices. Há gente que leva a vida a bater e a ser batida e passa assim excelentemente. Que lhe preste.”
(F. Martins Sarmento – Guimarães, 9 de Outubro de 1895)[11]
 
As relações entre estes homens nem sempre foram tão cordiais como podiam parecer aos olhos da opinião pública. Com a sua luta e as suas lutas, com o seu empenho e persistência, desbravando terrenos inóspitos, foram afinal estes homens os pioneiros que contribuíram para o conhecimento e preservação do nosso passado comum e permitem às gerações actuais e futuras empreenderem um regresso ao passado no Museu D. Diogo de Sousa, na Citânia de Briteiros ou nas diversas instalações da Fundação Martins Sarmento.


[1] Arquivo Municipal de Braga, excerto de Acta de Sessão Camarária, 1912.
[2] Neves, António Amaro das, CatalogoBelinoWeb, Texto Introdutório Da Exposição de Março de 2005,Museu da Sociedade Martins Sarmento, SECÇÃO ALBANO BELLINO.
3] Belino, Albano, Inscrições Romanas de Braga (inéditas). Braga, Tipografia Lusitana, 1895.
4] Idem, ibidem
[5] Martins Sarmento e Albano Bellino – CatalogoBelinoWeb, Extractos da Correspondência (3 de Agosto de 1894 a 22 de Junho de 1899)
[6] Estimo muito que os ventos lhe continuem favoráveis. O meu palpite é que ainda tem muita coisa a descobrir nessa mina braguesa. (F. Martins Sarmento – Guimarães, 5 de Maio de 1896)
[7] Belino, Albano, Inscrições Romanas de Braga (inéditas). Braga, Tipografia Lusitana, 1895.
[8] Martins Sarmento e Albano Bellino – CatalogoBelinoWeb, Extractos da Correspondência (3 de Agosto de 1894 a 22 de Junho de 1899).
 [9] Belino, Albano, Inscrições Romanas de Braga (inéditas). Braga, Tipografia Lusitana, 1895.
[10] Idem, ibidem 
 [11] Martins Sarmento e Albano Bellino – CatalogoBelinoWeb, Extractos da Correspondência (3 de Agosto de 1894 a 22 de Junho de 1899).
 
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Quinta-feira, 15 de Maio de 2008

AS ORAÇÕES ESCOLARES NO LICEU NACIONAL DE BRAGA

As Intervenções do Dr. Pereira Caldas

na segunda metade do século XIX

 

 

 
Certas instituições têm por hábito abrir as suas actividades anuais com recurso a uma cerimónia designada genericamente por “Abertura Solene”. É a Abertura Solene das Aulas nesta ou naquela Universidade, é a Abertura Solene do Ano Judicial, etc..
Ao longo dos séculos, tem feito parte integrante do programa da “Abertura Solene das Aulas” a chamada “Oração de Sapiência”. Esta já era pronunciada na abertura solene do ano lectivo da universidade portuguesa quando, ainda no início do séc. XVI, estava sediada em Lisboa. O dia escolhido era o dia de S. Lucas, 18 de Outubro. Chegou até nós a “Oração de Sapiência” proferida em latim – a língua latina era a língua de cultura da época – no dia 18 de Outubro de 1504 pelo jovem Conde de Alcoutim, D. Pedro de Meneses na qual o Conde tece o elogio das disciplinas então professadas no Estudo Geral Olisiponense. Mais tarde fixou-se a data de 1 de Outubro.
Como se constata, esta prática já vem de longe e, à semelhança do que se passava na Universidade de Coimbra (a única existente em Portugal no séc. XIX), também os Liceus nascidos com a reforma de Passos Manuel implementaram esta prática. Era um acto que estava até determinado por Decreto do Ex.º Ministro do Reino e preceituado no Regulamento Escolar de cada Liceu – a existência de Regulamentos Internos das Escolas não é uma invenção dos nossos dias. No contexto dos Estudos Secundários, este discurso inaugural passou a designar-se por “Oração Escolar”.
O Dr. José Joaquim da Silva Pereira Caldas, ou simplesmente Dr. Pereira Caldas, foi professor do Liceu Nacional de Braga, tendo tomado posseno dia 21 do mês de Novembro de 1846, como professor proprietário e vitalício da cadeira de Aritmética e Geometria e das primeiras noções de Álgebra.[1]
Pereira Caldas era natural das Caldas de Vizela, freguesia de S. Miguel, freguesia onde nasceu a 26 de Janeiro de 1818. Tendo feito os estudos secundários em Guimarães, matriculou-se depois na Universidade de Coimbra onde concluiu os seus estudos superiores.
Leccionou durante um ano, no Liceu Nacional de Leiria, mas a sua carreira docente decorreu toda no Liceu Nacional de Braga, então sediado no extinto Convento dos Congregados, no Campo de Sant’Ana.
Foi aí que, ao longo da sua carreira docente, lhe coube proferir quatro “Orações Escolares” no início dos anos lectivos de 1872, 1874, 1876 e finalmente, na qualidade de professor decano do Liceu, em 1886, sendo então Reitor o Dr. José Alves de Moura.
Em cada uma delas o Dr. Pereira Caldas abordou uma temática diferenciada. Na Oração Escolar proferida em 1872 escolheu como tema da lição inaugural do novo ano lectivo o Amor da Instrução. Lançando mão de múltiplos exemplos da história pátria no campo das letras e das ciências, incentivou professores e alunos a aplicarem-se de alma e coração ao estudo. Como as obras de Camões eram por ele consideradas quase como uma Bíblia, nunca deixava de recorrer a um ou outro texto do nosso épico para ilustrar as suas intervenções. Também neste contexto histórico do País e em início solene de ano lectivo lançou mão do conhecido verso camoniano “ Numa mão sempre a espada e noutra a pena”.
Na abertura solene do ano lectivo de 1874, aborda a temática do Amor da Liberdade. Ele que combatera ao lado da facção mais progressista dos liberais, considera a liberdade a base do progresso e da civilização, o fundamento da ordem e da justiça, o motivo do prémio e do castigo. Como era seu timbre ilustrou a sua Oração Escolar com recurso aos exemplos pátrios e relembrou as palavras de Alexandre Herculano “Creio que Deus é Deus – e os homens livres.”
Assinale-se que o Dr. Pereira Caldas foi um dos arautos da liberdade nesta sociedade bracarense da segunda metade do século XIX, ao promover várias conferências na Sociedade Democrática e Recreativa de Braga de que se destaca a sua própria intervenção na sessão de 15 de Dezembro de 1879.[2]
Na abertura solene do Liceu Nacional Bracarense no ano de 1876, o tema desenvolvido foi o Amor da Pátria. O tratamento deste assunto leva-o a fazer desfilar perante professores e alunos “as heroicidades prodigiosas dos nossos maiores, que à sombra da Cruz da Redenção desencravaram de domínios mauritanos este abençoado solo”. Exalta a Imagem da Pátria recorrendo aos versos do poeta bracarense Gabriel Pereira de Castro:
 

Junto a seu pés está sentada a História,
Rodeada de livros onde escreve
Feitos que dignos são de eterna glória,
A que ofender a Idade não se atreve.

 
Na Oração Escolar pronunciada em 15 de Outubro de 1886, já a caminho dos sessenta e oito anos e tendo já perdido a esposa e a sua única filha, disserta, na qualidade de professor decano do Liceu, sobre o Amor da Religião, “como o só e único farol possível – nos trabalhos da vida e nas agonias da morte – para a tranquilidade da consciência e a paz do coração e para atalhar de pronto a perversão ascendentíssima do senso moral na sociedade”.
As suas variações sobre o tema são no mínimo curiosas não só porque nos permitem ter uma visão do pensamento da época no que toca à religião e à conduta moral das pessoas, mas também porque nos permitem um confronto e um diálogo peculiar com o nosso próprio tempo.
O Dr. Pereira Caldas considera que só os valores do Cristianismo não permitirão “converter a liberdade em licença[3] e chamar progresso ao desenfreamento – supondo civilização a falta de para crer, a falta de esperança para confiar e a falta de caridade para amar!”
Considera que será em vão “que os espíritos livres dos nossos tempos – filhos requintados dos espíritos fortes dos tempos anteriores – terão para si em devaneios anti-‑religiosos, que este século de aniquilação das distâncias com vias férreas a vapor – século iluminado com o facho inextinguível da liberdade (…) – há-de vir a ser também num dia, «dia por eles almejado», o século também da aniquilação das crenças cristãs!”
Pensa que tal não acontecerá e, a este propósito, cita Alexandre Herculano - «apodem eles de loucos embora os crentes» - que de tudo apesar e contra tudo:
 

«A loucura da Cruz não morreu».
 

Conclui proclamando diante de professores e alunos: “Este século nosso dos inventos assombrosos – apesar da irreligião perversora do senso moral – está mostrando ao vivo nesses anelos mesmos, que a Cruz da Redenção eleva e não degrada, – engrandece e não infama – exalça e não deprime.”
Como fervoroso apaixonado de Camões não podia deixar de concluir esta sua última Oração Escolar sem recorrer aos seguintes versos do nosso épico (Canto I, LXV):
 

A lei tenho d’ Aquele a cujo império
Obedece o visível e o invisível:
Aquele que criou todo o hemisfério,
Todo o que sente e todo o insensível;
Que padeceu desonra e vitupério,
Sofrendo morte injusta e insofrível;
E que do céu à terra enfim desceu,
Por subir os mortais da terra ao céu!
 

Foi esta a sua última Oração Escolar, embora o seu vigor intelectual tivesse perdurado por mais alguns anos, produzindo saborosos frutos.
Foi a 19 de Setembro de 1903 que a sua voz se calou para sempre. Restam-nos os seus múltiplos artigos publicados em jornais e revistas, restam-nos os seus opúsculos A sua produção literária mereceria certamente um estudo, não tanto pela largueza de cada obra, mas sobretudo pela variedade temática, pela oportunidade dos assuntos versados em cada momento histórico ou pela sua relação com as tradições locais.
 


[1] Martins, Luís Carlos Coelho, No 1º Centenário da morte do D. Pereira Caldas, Bracara Augusta – Revista Cultural da C. M. De Braga, vol. LII, nº107, Ano 2004
[2] Martins, Luís Carlos Coelho, As Farpas e a Sociedade Democrática e Recreativa de Braga, Diário do Minho, 27 de Abril 2005, Suplemento Cultural
[3] Por licença entenda-se o desregramento moral, a insubordinação.
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Domingo, 3 de Fevereiro de 2008

O POTE DA VERDADE

Ao fechar este ciclo de comemorações que relembram o homem e a obra de Mons. Nunes Pereira, aqui fica “in memoriam” o registo de um conto de Fajão. Os Contos de Fajão, colectânea de contos recolhidos por Mons. Nunes Pereira e editados pela Junta de Freguesia de Fajão, são uma obra emblemática da tradição oral desta freguesia beirã. Acresce ainda a excelente ilustração que acompanha esta edição, “enriquecida pela introdução de reproduções de xilogravuras expressamente executadas por Mons. Nunes Pereira para ilustrar a temática de cada um dos contos”.
Por outro lado enquadra-se perfeitamente nesta época carnavalesca o conto que se transcreve.
 
Estava a decorrer um julgamento no tribunal de Fajão, e a certa altura uma testemunha fez o seu depoimento e rematou: Isto é que é a verdade.
O Juiz, ao ouvir falar em verdade, perguntou ao Delegado e ao Escrivão o que era aquilo, a verdade. Afinal, ninguém ali sabia o que era: só sabiam que era uma coisa que vinha de Coimbra.
Então encarregaram o oficial de diligências de ir a Coimbra buscar a verdade.
Ele foi, levou um grande pote para trazer cheio de verdade, e quando chegou à entrada de Coimbra, ali por alturas do Calhabé, perguntou onde era a Universidade, pois lhe pareceu que na Universidade é que encontraria verdade com fartura.
Calhou passarem por ali uns estudantes, e ao verem aquele serrano de carapuça e tamancos abertos, vestido de burel, a perguntar onde era a Universidade, para lá ir buscar a verdade, logo acudiram dizendo: Deixe cá isso connosco, e amanhã às tantas horas esteja aqui, que nós trazemos o pote cheio de verdade.
O homem concordou e entregou-lhes o pote.
Dali os estudantes foram para a sua «República», e nessa noite todos «fizeram» para dentro do pote. Depois puseram-lhe um pano na boca e amarraram-no muito bem, e no dia seguinte, de manhã, lá estavam no sítio combinado, com o pote da verdade.
«Aqui está o pote cheio de verdade. O senhor leve-o com muito cuidado, e não o abra nem o deixe abrir senão quando chegar a Fajão, e diante do Sr. Juiz e das autoridades da vila, porque a verdade é uma coisa muito fina, evapora-se com muita facilidade».
O oficial de diligências, todo satisfeito, lá foi para Fajão com o pote da verdade.
Chegado a Fajão, dirigiu-se à Praça, em frente da Câmara. Logo constou que tinha chegado a verdade, e todos se juntaram: o Juiz, o Pascoal, o Escrivão e as demais autoridades. Diante de todos foi destapado o pote, colocado em cima de um poial, e o Juiz foi o primeiro a cheirar. — «Parece que é merda!...», disse ele. E o oficial de diligências respondeu: — «É verdade!» Seguidamente todos cheiravam, e todos diziam: «Realmente parece que é merda». Mas o homem respondia sempre: — «É verdade!»

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Quinta-feira, 3 de Janeiro de 2008

BRACARA AVGVSTA

Na Cartografia do Renascimento destacam-se os “mapas urbanos”, vulgarizados por toda a Europa, sobretudo nos séculos XVI e XVII. O mais afamado é o Atlas urbano de Georg Braun e Franz Hogenberg publicado em Colónia com o título Civitates Orbis Terrarum. Nele está inserta a conhecida gravura de Braun, também designada por “mapa de Bráunio” que representa a cidade de Braga em finais do século XVI (1594) com o título Noua Bracarae Avgvste Defcriptio.

O historiógrafo da Santa Igreja Bracarense, Gaspar Álvaro Machado escreveu, em latim, um texto sobre o que se pensava nessa época acerca da história de Bracara Augusta. Aqui apresentamos uma versão portuguesa do referido texto latino que acompanha a gravura de Braun. A tradução deste texto e um estudo mais alargado sobre a própria gravura foram já publicados na Revista “Quatro Ventos” (terceira série, número três, Fevereiro de 2007).
 
RECENTE DESCRIÇÃO de BRACARA AVGVSTA
 
Consta que Braga, uma das cidades mais antigas da Hispânia, foi fundada pelos Gauleses Celtas[1], com o sobrenome de “Bracatos”[2], no ano 290 antes de Cristo. Após um cerco de 40 anos, os Romanos, colocada a cidade sob o seu domínio, finalmente possuíram-na durante quase quinhentos anos e atribuíram-lhe o nome de Augusta. Houve nesta cidade primeiramente um convento jurídico, um dos sete da Hispânia Citerior, instituído segundo o antigo costume romano, donde, segundo o escritor Plínio[3], vinte e quatro cidades costumavam reclamar a justiça. Daqui são traçadas por Antonino Pio cinco vias militares para várias partes da Hispânia. O poeta Ausónio[4]chama a esta cidade rica e florescente em riqueza. Mas nos antigos anais dos antepassados, um escrito mostra que em Braga esteve a antiga sede dos reis dos Suevos mais de cento e setenta anos, e sob os Godos floresceu cento e vinte e sete anos, e esta foi a primeira entre todas as cidades Metropolitanas da Hispânia, que Afonso, o primeiro deste nome, cognominado Católico, Rei dos Hispanos libertou do domínio dos Sarracenos para a antiga liberdade, no ano de 740. Aqui foi sepultado, na Igreja Catedral[5] que ele próprio tinha erigido, o primeiro pai dos reis de Portugal, o Conde Henrique (filho de Guido[6] Conde de Vernohen e de Briones) pai de Afonso Henriques, primeiro Rei de Portugal. Mas de longe a maior honra para a cidade advém do legado sagrado. Com efeito abraçou a fé de Nosso Senhor Jesus Cristo, sendo pregador D. Pedro[7], discípulo de S. Tiago Maior, apenas dez anos após a data, em que o mesmo Senhor, subjugada a morte, como vencedor, tinha subido ao céu. Portanto Braga honra, como patrono, o mesmo São Pedro mártir, seu primeiro Arcebispo, do mesmo modo conjuntamente com os outros seus três Pastores: Martinho, Frutuoso e Geraldo, pelos quais, como quatro colunas, a Igreja Bracarense é sustentada e resplandece. Ela que outrora derramou muito sangue por Cristo, foi enriquecida com oito corpos de Santos e outras inumeráveis relíquias, ornada de templos, enobrecida com os Concílios dos Padres, adornada com confrarias canonicamente instituídas, reivindica para si, por direito antiquíssimo, o primado de toda a Hispânia; por esta razão, há um velho litígio com a Sé de Toledo, e desta contenda faz menção Honório III, no capítulo “Coram, De in integrum restitut.”. Contudo este litígio está silenciado desde o tempo deste mesmo Pontífice Máximo até aos nossos dias.
Braga fica naquela parte do Reino de Portugal que é chamada região Interamnense, isto é, entre os dois famosos rios Douro e Minho pelos quais está delimitada. Situa-se na quinta zona climática, tendo o grau de longitude 6, de latitude 42 e meio, e dista do Oceano cinco léguas.
 O conjunto dos cidadãos obedece ao seu Arcebispo de pleno direito, quer no que toca à jurisdição espiritual, quer temporal. Outrora com muito mais habitantes, agora conta cerca de dois mil. Usufrui de uma grande doçura do céu e dos ares, de uma admirável fecundidade dos campos, e de uma beleza, mercê que é comum a ela e a toda esta região Interamnense. Acerca desta cidade, encontrarás estas e muitas outras coisas dignas de serem conhecidas na nossa Metrópole Bracarense, que, se Deus quiser, pensamos editar sob os auspícios do ilustríssimo Primaz Agostinho, por cujo mandato e autoridade percorremos toda a diocese, e no mapa, empenhadamente, representámos, desenhando os montes, as cidades, os rios, as fortificações, as paróquias, as capelas e os caminhos geográficos.
Estas coisas escreveu Gaspar Álvaro Machado, historiógrafo da Santa Igreja Bracarense.


[1] Júlio César no seu “Comentário sobre a Guerra Gaulesa” refere que os Gauleses, na sua própria língua, se designavam Celtas, mas os Romanos chamavam-lhes Gauleses.
[2] “Braccatis” significa Gauleses, mas, com esta tradução, evidencia-se a relação etimológica com “Bracara”.
[3] Investigámos a obra de Plínio, o Velho, funcionário imperial, militar e historiador (séc. I) e encontrámos na sua Historia Naturalis, Liber III o excerto que fundamenta a afirmação de Gaspar Álvaro Machado:
Citerioris Hispaniae sicut conplurium provinciarum aliquantum vetus forma mutata est, utpote cum Pompeius Magnus tropaeis suis, quae statuebat in Pyrenaeo, DCCCLXVI oppida ab Alpibus ad fines Hispaniae ulterioris in dicionem ab se redacta testatus sit. nunc universa provincia dividitur in conventus VII, Carthaginiensem, Tarraconensem, Caesaraugustanum, Cluniensem, Asturum, Lucensem, Bracarum. accedunt insulae, quarum mentione seposita civitates provincia ipsa praeter contributas aliis CCXCIII continet, oppida CLXXVIIII, in iis colonias XII, oppida civium Romanorum XIII, Latinorum veterum XVIII, foederatorum unum, stipendiaria CXXXV. 
[4] O poeta Ausónio escreveu uma obra em que descreve vinte cidades do Império Romano, entre as quais Bracara Augusta: “Quaeque sinu pelagi jactat se Bracara dives”.
 [5]O Conde D. Henrique, embora tenha falecido em Astorga, foi trasladado para a “Capela dos Fundadores” na Sé de Braga.
[6] Como se constata, no séc. XVI havia uma enorme incerteza sobre a origem da genealogia do Conde D. Henrique. Alguns cronistas portugueses e o próprio Camões, em dois passos d´Os Lusíadas, (III,25 e VIII,9 - indica a sua origem húngara) reforçam esta incerteza. Note-se, porém, que do ponto de vista histórico e genealógico o Conde D. Henrique era filho de Henrique de Borgonha, como veio a comprovar-se com o aparecimento, em 1596, de um manuscrito achado na abadia da Ordem de Cluny, na Borgonha.
[7] Trata-se de S. Pedro de Rates, tido como discípulo de São Tiago, o qual teria sido o primeiro bispo de Braga; na mesma sequência Basileu, também discípulo de Tiago, teria sido o fundador da igreja do Porto. Para Évora já o Livro das Calendas da Sé de Coimbra mencionava o nome de Manços, que André de Resende admite como tendo participado na entrada triunfal de Cristo em Jerusalém e acompanhado a Última Ceia. Miguel de Oliveira, "Lendas apostólicas peninsulares", in Lenda e História, Lisboa, 1964, pp. 79-110; J. Fernández Catón, San Mancio; culto, leyenda y religuias, León, 1983.


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Domingo, 2 de Dezembro de 2007

COIMBRA

 Uma gravura da Cidade de Coimbra, datada do século XVI, apresenta, para além de um conjunto de legendas que remetem para diversos espaços da cidade de então,  um texto latino, em anexo. Propomos uma versão portuguesa deste texto.
O texto apresenta uma curiosa referência a Aljubarrota, terra que me é particularmente querida.

 
 
“Conimbria”, vulgarmente conhecida por Coimbra, foi outrora capital do Reino de Portugal, chamada “Caliabria” por alguns Antigos, por outros de “Colimbria” ou “Colibria” e também “Coimbria” por Isidoro e Rosendo, embelezada com os esplendores da Natureza e da Arte. Na verdade, situada numa colina em lugar ameníssimo que por assim dizer a sustém, está rodeada de todos os lados por olivais, como em Atenas (hoje é denominada a Lusa Atenas) e por vinhedos. Situada junto do notável rio Muhamada ou Monda ou ainda Mondego que une por uma ponte as duas partes separadas da cidade, rio que na verdade, para além do Tejo e do Douro, é o principal na Lusitânia; esta cidade dista oito léguas da foz deste rio, que corre para ocidente, através de campos muito férteis e muito fecundos em produtos da terra. Durante algum tempo é navegado por pequenos barcos, sobretudo no Inverno; de facto arrasta consigo tão grande quantidade de areia, sobretudo no Inverno, que em muitos lugares superabunda em bancos de areia ocultos. Na verdade a margem, daquele lado onde está o Mosteiro de S. Francisco, cheia de seixos, proporciona passeios agradabilíssimos. De facto, embora o terreno da Lusitânia seja conhecido como inculto na maior parte dos lugares, contudo o território desta cidade é o melhor e o mais excelente de todo o Reino. Os patriotas chamam de Estrada de Aljubarrota[1] aos montes que a cidade tem nos arredores, montes esses cheios de olivais, de vinhedos e de todo o género de árvores de fruto para seu deleite e proveito. E mais ainda, Coimbra é irrigada por abundantes fontes de água muito cristalina, sobretudo graças ao célebre aqueduto concluído, com um enorme investimento, pelo Rei D. Sebastião no ano de 1572. Com efeito dele, para a colina mais alta da cidade, que fica nas traseiras do Palácio Real, onde existe o Fórum dos Estudantes, é vazada, para dentro de um depósito de mármore, tamanha quantidade de água claríssima e de sabor agradabilíssimo que é canalizada como uma torrente, através de todas as praças, no decurso de todo o ano, para variados usos e inúmeros benefícios dos cidadãos. Mais ainda, Coimbra evidencia-se com uma maior fortuna pela Catedral, fundada de uma forma excelente pela Igreja, e pelos Estudos Gerais das Artes mais excelentes que não só a amenidade do lugar mas também os vários ofícios das artes mais excelentes recomendam. Com efeito aí, a expensas régias, são generosamente apoiados e pagos os Professores de Teologia, de Direito Canónico e Civil e da Faculdade de Medicina. Em cada uma destas Faculdades, para que os estudantes sejam mantidos no seu trabalho com lições diárias, existem quatro Doutores ordinários, que com apuradíssimos e continuados exercícios de lições e de debates, aperfeiçoam o engenho dos estudantes até ao polimento e à suma elegância. Existem também professores públicos e particulares das línguas eruditas e os Padres da Companhia de Jesus ensinam com efeito as ciências de Humanidades com um zelo esmerado e com grande sucesso, formando a juventude simultaneamente na piedade e nas belas-letras. Aqui existem também quatro Cursos de Artes: os de Lovaina, a Pedagogia, os de Colónia, os Bolseiros (do Colégio de Santa Bárbara de Paris). Outros a que chamam Colégios, nos quais são leccionadas a Filosofia, a Metafísica e a Matemática. Existem ainda outros Colégios dotados e instituídos pelos Prelados e por excelentes varões cuja descrição exige uma narração demasiado longa. Os nomes destes são apresentados em placas próprias ou numa pintura. Todos os estudantes observam no vestuário as antigas leis da modéstia, da gravidade e das escolas, na realidade são obrigados a andar com toga. E são frequentados em grande número. Gozam de jurisdição privada – separada da dos outros cidadãos – e privilegiada. Nela elegem, do próprio seio da Universidade, os edis, os prefeitos e os administradores da justiça. Estes igualmente no próprio foro da Universidade presidem ao tribunal e ditam o direito. E regulam o preço de venda dos produtos.

[1] No Dicionário Corographico de Portugal Continental e Insular pode ler-se:
"Defronte da villa a 200 metros de distância veem-se alguns vestigios da antiquissima egreja de Santa Marinha (ainda veem no adro sepulturas de eras remotíssimas, com dizeres e instrumentos agrícolas esculpidos). Teem-se aqui achado moedas romanas de prata."

No entanto o nome Aljubarrota terá muito provavelmente origens árabes, aquele povo, durante a sua longa ocupação, terá denominado a povoação aqui existente de Aljobbe (que significa poço, cisterna ou cova funda) que mais tarde derivou para Aljubarrota.
http://www.jf-aljubarrota.pt/historia/historia_home.htm
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